Resenha: Série “Não Mexa”, de Mikito Chinen

A série Não mexa neste celular e Não mexa neste arquivo, publicada pela Intrínseca, não chama atenção apenas pelo projeto gráfico impecável. A experiência de leitura vai muito além da história, transformando o próprio formato dos livros em parte da narrativa. Vem comigo saber tudo sobre os livros!
Não mexa neste celular
Em Não mexa neste celular , temos acesso ao telefone de Kazuma Isshiki, um jovem universitário quer muito arranjar um emprego para conseguir morar com a namorada. Entretanto, durante uma aventura que pode ajudá-lo a conseguir um trabalho, acaba se deparando com algo assustador.
Não mexa neste arquivo
Não mexa neste arquivo apresenta uma narrativa dinâmica, construída a partir de transcrições de entrevistas e registros da avaliação psiquiátrica do autor de um assassinato em massa que choca todo o Japão. Transtornado pela crença de que está sendo constantemente observado por um monstro, o assassino se mostra inquieto, paranoico, e seu estado mental o leva a tomar medidas drásticas. Mas o que seria essa entidade misteriosa capaz de deixar alguém com tanto medo?
Uma narrativa diferente e envolvente
Quando terminei o primeiro livro, comecei imediatamente o outro. Mas bastaram as primeiras páginas para perceber que havia algo muito maior acontecendo. As histórias de certa forma se cruzam e a cada revelação a narrativa se tornava ainda mais envolvente, tornando impossível parar de ler.
Um dos aspectos que mais me chamou atenção foi justamente a estrutura do segundo livro. Toda a história é apresentada por meio da transcrição de quatro sessões de análise psiquiátrica. A protagonista, é uma ex-psiquiatra que está sendo julgada por algo que o leitor ainda desconhece. Ela vai contar tudo o que aconteceu e tentar explicar os acontecimentos que a levaram até aquele momento. Aos poucos, vamos entendendo suas motivações, sempre com aquela sensação de que ainda falta uma peça importante no quebra-cabeça.
+ Lançamentos da Intrínseca em julho/2026
Achei extremamente interessante acompanhar essa história por um ponto de vista completamente diferente do apresentado em Não mexa neste celular. Enquanto o primeiro livro acompanha os acontecimentos em tempo real, Não mexa neste arquivo revisita eventos parecidos sob uma nova perspectiva. Assim, aprofundando a lenda japonesa que envolve uma entidade de cem olhos capaz de amaldiçoar qualquer pessoa que invada seu território. Segundo essa crença, a vítima passa a ser perseguida até cometer suicídio. É justamente tentando compreender essa maldição que protagonista acaba envolvida em acontecimentos que mudam completamente sua vida.
O mais interessante é que, durante toda a leitura, eu simplesmente aceitei aquela lenda como verdade. Em nenhum momento fiquei procurando uma explicação racional para tudo aquilo. A construção da narrativa é tão convincente que a ansiedade em descobrir o que realmente está acontecendo fala mais alto do que qualquer tentativa de criar teorias. A tensão vai crescendo a cada capítulo, e a sensação constante é a de estar sempre faltando alguma informação.

Os detalhes fazem toda a diferença
Mesmo parecendo uma história simples à primeira vista, é um livro extremamente detalhista. Cada nome citado, cada profissão, cada conversa e cada pequeno detalhe fazem diferença mais adiante. É aquele tipo de leitura que precisa prestar atenção em tudo. E justamente por isso, quando as respostas começam a aparecer na reta final, a sensação é de puro impacto.
O final merece um destaque especial. Na verdade, a minha cabeça começou a explodir um pouco antes da conclusão, quando as primeiras revelações começaram a surgir. Mas os últimos capítulos conseguem elevar tudo a outro nível. Foi impossível não pensar: “Como eu não percebi isso antes?”. É aquele tipo de plot twist que faz o leitor se sentir completamente enganado. Tudo fazia sentido o tempo inteiro, mas eu simplesmente não consegui enxergar.
Se eu tivesse que apontar algum ponto negativo, sinceramente não conseguiria. Foi uma leitura que me conquistou completamente e entrou facilmente para a lista dos meus livros favoritos do ano. A mistura entre thriller, mistério e um toque de terror funciona muito bem, principalmente porque o livro brinca constantemente com tecnologia, crenças populares e o medo do desconhecido.
Mais do que contar uma história de suspense, a obra também faz uma reflexão interessante sobre nossa relação com a tecnologia. Existe uma ironia enorme em terminar essa leitura e, logo em seguida, pegar o celular para comentar sobre ela. É uma história que continua ecoando mesmo depois da última página.
Vale a pena a leitura?
Talvez quem procure um terror extremamente sobrenatural ou uma trama cheia de acontecimentos mirabolantes possa estranhar um pouco a proposta. Não é esse tipo de livro. A força da história está justamente na simplicidade da construção e na forma como ela conduz o leitor até respostas que, ao mesmo tempo, resolvem diversos mistérios e deixam outros questionamentos em aberto.
Por isso, considero que vale muito a pena ler a série Não Mexa!, principalmente para quem deseja sair um pouco dos thrillers mais americanizados e conhecer uma narrativa diferente. Mais especificamente inspirada na cultura japonesa. Recomendo fortemente que os dois livros sejam lidos em sequência, já que um complementa o outro e várias respostas só fazem sentido quando as duas partes da história são concluídas.
Também não posso deixar de elogiar o trabalho da Intrínseca. O projeto gráfico faz toda a diferença na experiência de leitura. Em Não mexa neste celular, a sensação é realmente a de estar navegando pelas mensagens de um celular. Em vários momentos fiquei apreensiva simplesmente por virar uma página sem saber o que encontraria em seguida. Já em Não mexa neste arquivo, essa tensão continua, principalmente quando surgem fotografias e documentos espalhados pelo livro. É uma experiência que vai muito além da leitura tradicional. A editora acertou em cheio na forma como apresentou essa história ao leitor.
No fim das contas, foi uma das experiências de leitura mais marcantes que tive este ano. Se depender de mim, quero ler muitos outros livros desse autor.




