Resenha: O canto da sereia, de Gabi Burton

Em O Canto da Sereia, Gabi Burton parte de uma figura bastante conhecida da fantasia para construir uma história que combina ação, romance, intrigas políticas e conflitos de identidade. Publicado pela Galera Record, o livro acompanha Saoirse, uma jovem treinada para ser uma assassina e que esconde sua verdadeira natureza enquanto se infiltra na guarda pessoal do príncipe herdeiro Hayes. A missão, porém, se torna cada vez mais complicada quando a proximidade entre os dois começa a ultrapassar os limites do que ela havia planejado.
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Qual é a história?
Saoirse é uma assassina. Seu canto atrai homens para a morte, o que faz dela a arma mais letal de todo o reino.
Saoirse é uma mentirosa. Sua identidade precisa permanecer em segredo a qualquer custo. Se a família real descobrir que ela é uma sereia, a sentença de morte será seu destino.
Saoirse é uma soldada. Como a melhor aluna da academia mais respeitada de Kierdre, ela passou anos sendo moldada para se tornar a assassina perfeita.
Saoirse é uma espiã. Quando sua irmã mais nova é chantageada e a Resistência ― um grupo de oposição à monarquia ― ressurge, Saoirse aceita a missão mais perigosa de todas: juntar-se à guarda pessoal do príncipe herdeiro e infiltrar-se na corte para desvendar os segredos da família real. Um único erro pode colocar tudo a perder.
No entanto, não é seu corpo que enfrenta a maior ameaça de todas, e sim o seu coração.
O príncipe Hayes ordenaria sua execução sem pensar duas vezes se descobrisse a verdadeira natureza de Saoirse. Ainda assim, quanto mais os dois se aproximam um do outro, mais difícil se torna resistir à atração proibida ― e mais mortal se torna o preço do desejo.
Muito além da criatura:
Um dos maiores acertos da obra está justamente na construção de Saoirse. Ela não é apresentada apenas como uma criatura fantástica ou uma protagonista à espera de ser salva. É uma personagem habilidosa, determinada e perigosa, mas que também carrega conflitos relacionados à própria identidade e às escolhas que precisa fazer. Sua posição como sereia, assassina, soldada e espiã cria diferentes camadas para a personagem e ajuda a sustentar boa parte da narrativa.
A autora também consegue utilizar o universo das sereias de uma maneira interessante. Em vez de transformar o canto como um simples elemento romântico ou mágico, Burton o apresenta como uma arma letal. Isso dá à protagonista uma característica bastante particular e ajuda a criar momentos de tensão ao longo da trama.
Um slow burn bem trabalhado:
Outro ponto positivo é a mistura de gêneros. O Canto da Sereia não depende exclusivamente do romance para movimentar a história. A missão de Saoirse, a Resistência e os segredos envolvendo a família real dão à narrativa uma dimensão política que complementa o relacionamento entre ela e Hayes. A história ganha força justamente quando esses diferentes conflitos começam a se cruzar.
O romance, por sua vez, segue a proposta slow burn e trabalha com a atração proibida entre os protagonistas. A ideia funciona especialmente porque existe uma ameaça constante: se Hayes descobrir quem Saoirse realmente é, a relação entre os dois pode ter consequências fatais. Ainda assim, esse é um dos aspectos que poderia receber um desenvolvimento mais cuidadoso. Em alguns momentos, a aproximação entre os personagens parece acontecer de maneira mais rápida do que o esperado para uma relação construída ao longo da história.
Uma obra imperfeita:
A narrativa também apresenta algumas oscilações de ritmo. Enquanto os momentos de ação e os mistérios envolvendo a corte conseguem prender a atenção, determinadas passagens parecem menos desenvolvidas, principalmente quando a história precisa equilibrar seus diferentes conflitos. O desfecho, em especial, pode transmitir uma sensação de pressa diante de tudo o que foi construído anteriormente.
Apesar dessas ressalvas, Gabi Burton entrega uma fantasia envolvente e com personalidade. A autora consegue unir sereias, espionagem, disputas políticas, ação e romance sem fazer com que um único elemento domine completamente a história. O resultado é uma leitura que encontra seu maior mérito na protagonista e na maneira como o fantástico é incorporado aos conflitos humanos.
Vale a pena ler O Canto da Sereia?
O Canto da Sereia funciona, portanto, como uma boa porta de entrada para quem procura uma fantasia jovem adulta com romance, personagens moralmente complexos e uma protagonista que está longe de ser indefesa. Mesmo com alguns pontos que poderiam ser aprofundados, a história deixa curiosidade para os próximos capítulos desse universo — especialmente por ser o primeiro volume de Magia da Sereia.




