Entrevista: Karina Heid revela como construiu Os Incasáveis

Entre recomeços, descobertas e novas possibilidades, Karina Heid revela como construiu Os Incasáveis, que aposta em uma história de amor que nasce justamente quando acreditar nesse sentimento parece mais difícil. Em entrevista, a autora fala sobre a construção dos personagens, os caminhos de autoconhecimento de Júlia e Ian e a inspiração por trás de uma trama que também mergulha no universo das novelas e das relações familiares. Com romance, humor e conflitos pessoais, o livro convida o leitor a refletir sobre como experiências do passado podem influenciar a forma como enxergamos o amor — e como nunca é tarde para mudar essa perspectiva.
- OS INCASÁVEIS MOSTRA QUE É POSSÍVEL ENCONTRAR O AMOR MESMO DEPOIS DE EXPERIÊNCIAS QUE NOS FAZEM DESACREDITAR NELE. O QUE TE LEVOU A CONSTRUIR A HISTÓRIA A PARTIR DESSA IDEIA DE AMOR, RECOMEÇOS E NOVAS POSSIBILIDADES?
São três temas que eu adoro trabalhar em todos os romances. Essa coisa do “Como voltar a acreditar depois que você, sei lá, perdeu a confiança? Como você volta a confiar?”. São processos e, principalmente, são pessoas que fazem a gente voltar a acreditar. No caso ali, tem uma ajudinha de uma árvore. A história brinca um pouco com essa coisa de… “Será que foi a árvore?”. Existe uma árvore encantada que quem pisa debaixo dela se apaixona.
Então, a luta deles no início é: “Não, eu não vou pisar embaixo dessa árvore, porque eu não quero isso pra minha vida”. Cada um com seus motivos, só que, aos poucos você vai conhecendo as pessoas. Eu acho que essa é a lição que a gente tira depois de anos de vida, né? Existem pessoas e pessoas. Mas algumas vão realmente fazer você desacreditar e outras vão fazer você voltar a acreditar. E eu amo escrever romances sobre pessoas que voltam a acreditar por causa daquela pessoa especial.
- A JÚLIA PASSA POR UM PROCESSO INTERESSANTE DE AUTOCONHECIMENTO E DE COMPREENSÃO DA PRÓPRIA REALIDADE. IAN TAMBÉM ENFRENTA OS PRÓPRIOS CONCEITOS E CERTEZAS SOBRE O AMOR. COMO VOCÊ TRABALHOU NESSAS JORNADAS PARA O CASAL?
A dela, eu achava mais complicado trabalhar, porque ela perdeu a confiança, né? Ela foi traída. Só quem não foi traída, quem não sabe o que é ser traído e olhar e falar: “Gente, como que eu vou voltar a acreditar? Ah, não tem como. O próximo vai repetir assim que eu baixar a guarda”.
Ele, pra mim, foi mais fácil, porque não aconteceu com ele. Aconteceu com pessoas que ele amava, próximas a ele. Eram pessoas que acreditavam nessa lenda da família e ele viu acontecer coisas ruins e falou: “Eu não quero isso pra mim”. Por isso que ele funda Os Incasáveis, que é uma sociedade de pessoas que decidiram não se casar. Só que, ao mesmo tempo vem aquela pessoa especial. Eu acho que o romance brinca muito com isso, não é “volte a confiar em todas as pessoas”. É conhecer alguém que faz você voltar a acreditar.
- A FAMÍLIA MAGALHÃES É PRATICAMENTE UM ACONTECIMENTO À PARTE NA HISTÓRIA. COMO FOI CONSTRUIR ESSA FAMÍLIA E CRIAR UMA DINÂMICA TÃO PARTICULAR ENTRE ELES?
Aconteceu, uma coisa que tá ali na minha família. Eu fico até assim… sempre muito emocionada quando falam dela. Existe uma pessoa que faz a diferença e no caso é o patriarca da família. Ele decidiu que ia quebrar um ciclo ruim e instituiu que, na família dele, só haveria amor. E eles distribuem amor assim, descontroladamente para todo mundo.
Eles são gentis por escolha. Há esperança, mesmo quando você cresceu em um lar que não era muito amoroso. Então, aí vem esse avô amoroso que fala: “Você trouxe uma noiva sequestrada”. E aí ele abraça ela no meio daquela confusão. E ela fala que ele é tipo um Rivotril em forma de pessoa.
Leia também-Resenha: Os Incasáveis, de Karina Heid
- A FAMÍLIA MAGALHÃES E OS DEMAIS PERSONAGENS DESPERTAM BASTANTE CURIOSIDADE. VOCÊ PRETENDE CONTINUAR EXPLORANDO ESSE UNIVERSO EM OUTROS LIVROS E CONTAR AS HISTÓRIAS DE ALGUNS DELES?
Não, eu acho que encerrou. Encerra neles e na árvore que eles vivem. Vai acontecer uma cena no final, que abre o leque pra que mais coisas aconteçam com outras famílias. Mas não em uma especial.
- AS NOVELAS, OS REALITY SHOWS E O UNIVERSO DAS REDES SOCIAIS ESTÃO PRESENTES NA NARRATIVA E ACABAM TENDO IMPACTO NA VIDA DOS PROTAGONISTAS. DE ONDE VEIO ESSA VONTADE DE TRAZER ESSES ELEMENTOS PARA A HISTÓRIA?
No caso da novela, a Júlia é uma artista, é uma atriz de novelas. Na verdade, isso explica por que ela se apaixonou pelo noivo dela. Ela se deixou levar pelo personagem em que estava contracenando. Teve na frente das câmera, o amor que ela sonhava em ter atrás das câmeras.
Então, ela achou que fosse simples fazer essa transposição: o que aconteceu ali na novela vai ser a minha vida. E não foi, e é aí ela cai bonito do cavalo. Ela fala: “Gente, o amor de novela é amor de novela”. E foi aó que decidi que ia situar tudo dentro de uma novela, as referências estavam prontas. Os memes da Carminha, os memes da Fernanda Torres.
Já os memes, esses mais famosos, eu acho que eu faço isso em tudo. Todos os romances contemporâneos têm muita referência com o que tá acontecendo na hora. Não que seja muito específico, porque senão o livro fica datado.
- SE OS INCASÁVEIS GANHASSE UMA ADAPTAÇÃO, QUAIS ATORES VOCÊ ESCOLHERIA PARA INTERPRETAR JÚLIA E IAN?
Ele parece tanto com o Romulo Estrela. Acho que ele trabalha bem, é muito lindo. Não reclamaria nada! Embora eu não sei nem se é a faixa etária do ator. Mas ela… Inclusive, já me perguntaram: “Em quem você se baseou? Quem parece ela?”. Não me vem ninguém, não é uma pessoa específica. Qualquer atriz de novela, com carinha de doce, que parece doce, que faz novela das 6.
- PARA QUEM AINDA NÃO CONHECE O LIVRO, COMO VOCÊ APRESENTARIA OS INCASÁVEIS EM UMA ÚNICA FRASE, SEM ENTREGAR NENHUM SPOILER?
É um sequestro que dá certo.
+ Kéfera estreia na Galera Record com sua fantasia sáfica
- EM QUE MOMENTO VOCÊ PERCEBEU QUE QUERIA SER AUTORA?
É engraçado que não vem como um momento. Vem como uma série de pequenas situações que, um dia, você acorda e fala: “Gente” e botei “autora” na minha biografia. Eu acho que toda autora começa lendo e falando: “Nossa, que vontade de ampliar esse universo, de contar alguma coisa parecida”.
Desde os 14, eu escrevo em cadernos, histórias mesmo e não só pensamentos. Histórias com mocinhos, mocinhas, vilões e problemas. E aí eu recortava Capricho, colava as fotos, modelos da Capricho, para ilustrar a história. As pessoas falam: “Mas era tipo uma fanfic”. Se o conceito de fanfic for ampliado, talvez. Eu não me baseava no universo existente.
Nos anos 90 e 2000, você tinha que ter uma carreira. Ser escritor não era uma carreira. Talvez fosse a carreira do Paulo Coelho, da Clarice Spector, eu escrevia minhas coisinhas. Então, eu fui para a faculdade, fiz mestrado e casei. E, em uma certa época, morando na Romênia, sem poder trabalhar, eu falei: “O que eu vou fazer? Não quero ficar em casa e fazer nada. Eu vou botar uma história no papel”. E assim começou.
Eu postava no Wattpad, era divertido, até que um dia me falaram: “Por que você não publica na Amazon?”. Na hora que você tem a coragem de publicar, nasce ali uma autora. E foi assim que aconteceu. O resto foi crescendo, as pessoas foram gostando, chamando outras. Foi muito do boca a boca.
- O QUE TE INSPIRA A CONTINUAR ESCREVENDO? SABEMOS QUE MUITAS COISAS PODEM INSPIRAR UM AUTOR, MAS O QUE MAIS TE INSPIRA HOJE?
A resposta das leitoras. Quando você lança um livro e alguém vem no seu privado e fala: “Eu amei isso aqui”, você fala: “Meu Deus. Alguém gostou de uma coisa que saiu da minha cabeça”. É meio que uma conexão que faz com o que você fale: “Vou escrever o próximo”.
- ALGUMA SÉRIE OU FILME JÁ SERVIU DE INSPIRAÇÃO PARA ALGUM DOS SEUS LIVROS?
Sempre! É estranho pensar assim agora, porque depois que você incorpora, que pega a referência e coloca no seu, isso se transforma em outra coisa. E até a referência desaparece um pouco da cabeça. Como por exemplo Crepúsculo. Eu amo!
Já romance de época, eu acho que todo mundo que viu Orgulho e Preconceito. Então, assim, eu não consigo nomear exatamente. É uma amálgama, uma confusão de influências que se juntam e, dali, brota alguma coisa.
+ Entrevista: Babi A. Sette fala sobre Meu Mafioso Favorito
- TEM ALGUM LIVRO SEU QUE, OLHANDO HOJE, VOCÊ FARIA DIFERENTE?
Eu mudaria todos. Eu não posso voltar com meus livros, mas nunca é uma mudança enorme. Tudo que eu publico, eu tenho certeza do que eu estou publicando. É assim que eu queria o relacionamento, é assim que eu queria ele e ela. É muito importante pra mim que os meus personagens masculinos sejam extremamente respeitosos com as personagens femininas. Porque meu público é mulher e eu sou muito ligada nessas coisas.
Estamos passando uma época horrível, de muito desrespeito, feminicídio e ataques. Então, é muito importante pra mim que meus mocinhos sejam daquele jeito, como eu coloquei. Quanto a isso, eu não mudo nada. Mas, às vezes, você vê uma vírgula, ou que ele poderia ter sido mais enfático, que eu poderia ter demorado mais para colocar a declaração. Essas pequenas coisas.
- EXISTE ALGUM GÊNERO QUE VOCÊ AINDA NÃO EXPLOROU — OU EXPLOROU MUITO POUCO — E QUE GOSTARIA DE TENTAR ESCREVER?
Eu tenho vontade de me aventurar mais no paranormal. Eu já explorei, tenho dois livros com vampiro e de bruxa, mas eu tenho vontade de voltar.
- OLHANDO PARA TUDO QUE VOCÊ JÁ VIVEU COMO AUTORA, QUAL FOI O MAIOR APRENDIZADO QUE ESSA TRAJETÓRIA TE TROUXE?
O maior aprendizado foi: passos de formiguinha importam. As pessoas querem hoje em dia explodir de primeira ou viralizar. E é muito interessante quando acontece, mas eu acho que, como tudo na vida, tem dois lados. O passo de formiguinha traz muito aprendizado. Então, quando as coisas acontecem, você está muito mais preparada.
Essa rede de leitores, principalmente quando ela é orgânica, é muito fiel. Ela é muito legal, na verdade ela te sustenta. Não só financeiramente, mas wustenta suas histórias. Elas nem sempre estão falando nas redes, mas elas estão lá. Mesmo que você não esteja explodindo em lugar nenhum, as pessoas te conhecem porque foi tudo feito o boca a boca. As pessoas não andam valorizando isso.
- ALÉM DE APRENDER A LIDAR COM AS CRÍTICAS
Sim, as críticas pegam essas pessoas que viralizam de uma forma muito diferente. Porque nem sempre você entrega o que a pessoa quer naquela hora. Às vezes, um livro específico caiu na mão dela, ela leu e não gostou. Imagina se eu tivesse feito alguma coisa com ela? Eu penso: “Olha, minha porta está aberta para você voltar a qualquer hora.”




