Resenha: O filho do carbono e do amoníaco, de Ariel F. Hitz

O filho do carbono e do amoníaco, de Ariel F. Hitz, lançado pela Editora Rocco, o sobrenatural serve de ponto de partida para uma história que mistura romance, humor e amadurecimento. Entre fantasmas, descobertas pessoais e sentimentos inesperados, a obra constrói uma reflexão sensível sobre identidade, pertencimento, solidão e as conexões que podem surgir nos momentos mais improváveis.
Qual é a história de O filho do carbono e do amoníaco?
Existem histórias de amor que começam com um encontro inesperado. Outras, com uma despedida. Em O filho do carbono e do amoníaco, primeiro livro de Ariel F. Hitz pela Editora Rocco, essas duas possibilidades se encontram em uma narrativa que mistura romance, sobrenatural, humor e amadurecimento. Mais do que uma história sobre um garoto que se apaixona por um fantasma, a obra encontra sua verdadeira força ao explorar as diferentes formas de solidão e a necessidade humana de encontrar alguém com quem dividir as próprias inseguranças.
A trama acompanha Arlo, um jovem que se muda de cidade para cursar a faculdade e finalmente encontra a oportunidade de iniciar sua transição de gênero, longe da família e das pessoas que conheciam sua antiga realidade. Entretanto, a liberdade recém-conquistada também vem acompanhada de dificuldades financeiras e de uma solidão que ele ainda não sabe muito bem como enfrentar. É nesse contexto que começa a trabalhar como médium, embora sua habilidade sobrenatural seja, inicialmente, apenas uma maneira de ganhar dinheiro enganando clientes.
Tudo muda quando Domenico aparece. Diferentemente dos espíritos que Arlo finge conseguir enxergar, o garoto é um fantasma de verdade, preso ao mundo dos vivos por razões que ainda precisam ser descobertas. Irritado, sarcástico e dono de uma personalidade bastante particular, Domenico transforma a rotina do universitário em uma convivência inusitada. Entre comentários inconvenientes, noites insones e passeios pelos sebos da cidade, os dois desenvolvem uma conexão que ultrapassa as diferenças entre suas existências.
Uma relação além do romance:
Um dos maiores acertos de Ariel F. Hitz está justamente na construção dessa relação. O autor não se apoia apenas no elemento fantástico para desenvolver o romance, mas utiliza a convivência entre Arlo e Domenico como uma oportunidade para discutir intimidade, pertencimento e vulnerabilidade. Existe uma delicadeza na maneira como os personagens passam a ocupar o espaço um do outro, especialmente porque ambos carregam questões mal resolvidas e sentimentos que nem sempre conseguem expressar.
Outro aspecto interessante é a maneira como a identidade de Arlo participa da narrativa. Sua transição de gênero não aparece como um detalhe isolado ou como um conflito que define toda a sua personalidade. Ela faz parte de sua trajetória de amadurecimento, de sua busca por autonomia e do desejo de finalmente existir de acordo com quem é. Ao acompanhar essa experiência, o leitor também percebe que conquistar a liberdade pode ser um processo solitário, especialmente quando significa deixar para trás relações e ambientes conhecidos.
Do paranormal até as dificuldades da juventude:
A mistura de romance paranormal com situações cotidianas também funciona muito bem. Há humor nas interações entre os protagonistas, principalmente no contraste entre a personalidade de Domenico e a tentativa de Arlo de manter algum controle sobre a própria rotina. Essa leveza ajuda a equilibrar os momentos mais melancólicos e impede que a narrativa fique excessivamente presa aos seus conflitos emocionais.
Entretanto, o que realmente diferencia a obra é sua reflexão sobre os fantasmas que permanecem conosco, mesmo quando não existe nada sobrenatural envolvido. Enquanto Arlo tenta descobrir o que mantém Domenico preso ao mundo, também precisa olhar para as próprias inseguranças, compreender suas necessidades afetivas e reconhecer que não precisa enfrentar tudo sozinho. A ideia de que algumas pessoas chegam às nossas vidas para nos ajudar a enxergar aquilo que evitamos é explorada com sensibilidade.
O livro também encontra espaço para falar sobre a juventude sem romantizar completamente suas dificuldades. Existe confusão, medo, escolhas questionáveis e uma tentativa constante de descobrir como viver. Afinal, crescer não significa necessariamente ter todas as respostas, mas aprender a conviver com as próprias contradições.
Vale a pena ler O filho do carbono e do amoníaco?
Como primeiro romance de Ariel F. Hitz pela Rocco, O filho do carbono e do amoníaco apresenta uma voz literária que encontra beleza justamente nas imperfeições de seus personagens. A combinação entre sobrenatural, romance LGBTQIA+ e amadurecimento constrói uma leitura envolvente, especialmente para quem gosta de histórias em que os sentimentos são tão importantes quanto os acontecimentos.
No fim, o livro é menos sobre a impossibilidade de amar alguém que já morreu e muito mais sobre a possibilidade de encontrar vida em meio às próprias dores. Arlo e Domenico representam duas experiências diferentes de existência, mas compartilham uma necessidade profundamente humana: a de serem compreendidos e de não precisarem enfrentar a solidão sozinhos.
Com sensibilidade, humor e uma boa dose de melancolia, Ariel F. Hitz entrega uma história sobre aprender a viver, aceitar quem somos e descobrir que, às vezes, até os encontros mais improváveis podem nos ensinar a ter coragem. Porque alguns fantasmas não precisam ser expulsos: precisam apenas ser compreendidos.




