Resenha: Muito Mais que Trinta Dias, de Mika Serur

Depois de conquistar milhares de leitores no Wattpad, Muito Mais que Trinta Dias finalmente ganhou uma edição física pela Intrínseca. Escrito pela autora nacional Mika Serur, o romance conta a história de dois jovens e nos faz acreditar que não podemos desistir do amor. Ficou curioso? Vem comigo saber tudo o que achei!
Conheça a história de Muito Mais que Trinta Dias
A vida de Julian está um caos. Depois de um término traumático com um namorado que nem era tão legal assim, ele decide largar de vez o curso de Audiovisual e admitir para si mesmo que realmente não sabe o que quer para o futuro. Até que, incentivado pelos pais, surge uma ideia: e se ele viajasse para a Itália em um intercâmbio, acompanhado da irmã mais velha, para dar um tempo de tudo (e de todos)?
Em pouco tempo aparece a oportunidade perfeita: um trabalho como fotógrafo em uma escola de música, por um mês, em Roma. Logo Julian e Lana fazem as malas e partem rumo a uma das cidades mais bonitas do mundo. As expectativas dele não são grandes: Julian só quer esquecer o ex e se divertir um pouco. Mas o destino parece ter outros planos.
No segundo dia em Roma, Julian fica hipnotizado ao ouvir um pianista tocar em uma praça: um músico italiano tatuado, de cabelo preto e absolutamente gato. Nada disso seria um problema… se ele não descobrisse logo depois que o cara se chama Luca e é professor na escola onde Julian vai trabalhar.
Luca tem os próprios motivos para manter distância. Sem entender a atração inesperada que sente pelo brasileiro que definitivamente não sabe ficar de boca fechada, ele tenta manter o foco no seu maior sonho: conquistar espaço no mundo da música. Agora, os dois têm trinta dias para descobrir que o amor não espera pelo momento perfeito ― e muito menos pelo lugar certo.
Um romance baseado em provocações
Preciso dizer que a primeira coisa que me chamou atenção foi a própria edição. A capa é linda e transmite exatamente o clima acolhedor da história. Além disso, saber que a própria Mika colocou um pedacinho dela naquela ilustração deixou tudo ainda mais especial e fez com que eu começasse a leitura já com aquele sentimento de carinho. E bastaram poucos capítulos para perceber que Muito Mais que Trinta Dias seria exatamente o tipo de romance que eu precisava.
Entretanto, em vez de um romance imediato, Mika começa construindo uma relação baseada em provocações constantes. Julian não entende por que Luca parece sempre tão grosseiro com ele. Enquanto Luca também não consegue compreender por que aquele fotógrafo mexe tanto com seus sentimentos. Um provoca o outro o tempo inteiro, deixando a história muito engraçada e criando aquele clima perfeito para quando eles realmente entenderem seus sentimentos.
Confesso que essa primeira parte foi a minha favorita do livro. Eu simplesmente adorei acompanhar a relação entre os dois. Era impossível não criar expectativa para o momento em que eles finalmente entenderiam que toda aquela troca de provocações significava muito mais do que simples antipatia. A leitura flui com muita facilidade e foi um daqueles livros que eu não conseguia parar de ler porque queria descobrir logo quando eles iriam ficar juntos.

Não é um slow burn
Pode até paracer, mas Muito Mais que Trinta Dias está muito longe de ser um slow burn. Antes mesmo da metade da história, Julian e Luca já conseguem entender o que estão sentindo um pelo outro, e eu gostei bastante dessa escolha. Afinal, a autora não prolonga desnecessariamente um conflito de sentimentos apenas para encher páginas. Em vez disso, ela faz uma mudança muito interessante na narrativa, trazendo outros temas para serem abordados no livro.
Na primeira parte, até aquele momento, o grande questionamento era quando os dois finalmente aceitariam que estavam apaixonados. Depois que isso acontece, a pergunta muda completamente. O foco deixa de ser “eles vão ficar juntos?” e passa a ser “como eles vão viver esse relacionamento?”. Foi justamente essa virada de chave que mais me surpreendeu durante a leitura.
Obviamente, os dois passam por situações comuns de qualquer relacionamento no início. Existem momentos de ciúmes, pequenas discussões, inseguranças e dificuldades de comunicação, mas nada disso me pareceu exagerado ou infantil. Pelo contrário. Julian e Luca são protagonistas bastante maduros e isso faz toda a diferença na forma como a história se desenvolve. Eles conversam, tentam entender o que o outro está sentindo e resolvem seus conflitos de maneira natural. Isso fez com que eu gostasse ainda mais da relação entre eles, porque em nenhum momento tive a sensação de estar acompanhando dramas criados apenas para movimentar a trama.
Depois que o relacionamento dos dois se estabelece, a autora muda completamente o foco da narrativa. O romance continua sendo importante, mas passa a dividir espaço com questões relacionadas à aceitação, à identidade e ao preconceito. Gostei muito da forma como Mika trabalha principalmente a questão da bissexualidade de Luca. Como ele é um músico conhecido e está em busca de reconhecimento dentro da indústria musical, o personagem passa a lidar com o medo da reação das pessoas, dos comentários, dos julgamentos e das piadas que inevitavelmente surgem quando ele assume o relacionamento com Julian.
O diário de Luca aproxima o leitor de seus conflitos
Embora a história seja contada quase completamente pelo ponto de vista de Julian, Mika Serur encontrou uma forma muito inteligente de fazer o leitor também entender o lado de Luca. Ao final de alguns capítulos, temos acesso às páginas do diário do personagem, onde ele escreve tudo aquilo que está sentindo naquele momento. Achei esse recurso simplesmente incrível e deu uma dinâmica muito boa na leitura. Afinal, por mais que a narrativa acompanhe Julian durante praticamente toda a história, era importante enterndermos também os conflitos internos de Luca.
Luca está vivendo uma situação completamente nova. Acostumado a se relacionar com garotas, ele passa a sentir, pela primeira vez, atração por outro homem. Naturalmente, isso desperta dúvidas, inseguranças e uma série de questionamentos sobre quem ele é e sobre o que realmente está sentindo. Através do diário, conseguimos acompanhar esse processo de descoberta de uma maneira muito íntima, o que faz com que o personagem ganhe ainda mais profundidade.
Esse foi um dos aspectos que mais gostei em Muito Mais que Trinta Dias. Em nenhum momento Luca fica restrito ao papel de interesse amoroso do protagonista. A autora faz questão de mostrar que ele também está vivendo sua própria jornada, e isso torna a construção do relacionamento muito mais legal.
Foi interessante acompanhar esse processo porque a autora não transforma Luca apenas em um personagem apaixonado. Ela também mostra um jovem tentando entender quem ele é e como deseja viver a própria vida diante das expectativas das outras pessoas. É justamente nesse momento que os trechos do diário ganham ainda mais importância. Ao acompanhar os pensamentos de Luca, conseguimos compreender melhor seus medos, suas dúvidas e a forma como ele lida com tudo aquilo que está acontecendo. Para mim, esses capítulos foram fundamentais para que o conflito tivesse ainda mais peso emocional.
Vale a pena ler Muito Mais que Trinta Dias?
Muito Mais que Trinta Dias foi uma leitura que me surpreendeu. Desde o momento em que comecei a ler, já imaginava que encontraria uma história capaz de me conquistar, mas não esperava me envolver tanto com esse universo. Além de Julian e Luca serem protagonistas extremamente carismáticos, os personagens secundários também chamaram minha atenção. Lana, Victoria e todos que fazem parte daquele círculo de amigos despertaram minha curiosidade. Eu facilmente leria mais dois ou três livros acompanhando suas histórias.
Também gostei muito da forma como a autora construiu esse universo. A fotografia, a música, o rock, o pop, e todos os elementos presentes na narrativa ajudam a criar uma ambientação acolhedora e fazem com que a leitura seja ainda mais envolvente. É uma história gostosa de acompanhar, mas que também convida o leitor a refletir sobre diversos temas ao longo da leitura.
Mais do que um romance, Mika Serur entrega uma história sobre autodescoberta, aceitação, amizade, família e sobre a coragem necessária para viver aquilo que realmente sentimos. Mesmo que a segunda metade tenha um ritmo um pouco mais lento do que o início, Muito Mais que Trinta Dias nunca perde sua essência. Pelo contrário, a narrativa amadurece junto com seus personagens e termina deixando aquela sensação de que eu passaria facilmente mais alguns livros acompanhando Julian, Luca e todas as pessoas que fazem parte desse universo.




