Resenha: Lady Macbeth, de Ava Reid

Lançado pela Galera Record, Lady Macbeth traz uma perspectiva diferente sobre a personagem de William Shakespeare. Com uma narrativa ousada, Ava Reid dá voz e a história de alguém que era apenas a vilã do protagonsita. Por isso, vou contar tudo sobre o livro Lady Macbeth:
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A ousadia de Ava Reid sob Lady Macbeth:
De fato, Ava Reid traz uma narrativa diferente da personagem complexa de Shakespeare. Afinal, ela ganha voz própria, passado, agência, numa releitura que mistura fantasia sombria, política de poder e elementos sobrenaturais. O resultado é uma obra que tenta equilibrar herança shakespeariana com originalidade. E na maior parte do tempo, consegue. A protagonista aqui é Roscille, uma jovem que foi mandada em casamento por um arranjo de seu pai para Macbeth, um senhor escocês severo e guerreiro. Reid introduz um mistério sobrenatural ligado a ela: Roscille carrega rumores de magia, uma maldição que faria com que seu olhar enlouquecesse homens.
Esse artifício funciona bem como metáfora: a magia representa medos antigos, a forma como mulheres poderosas ou de beleza muito destacada foram historicamente vistas com suspeita, como algo perigoso ou “fora do lugar”. E Reid usa isso para mostrar como uma mulher forçada a se mover num mundo hostil de homens, de corte machista, de expectativas sociais opressivas, pode aproveitar aquilo que lhe foi imposto como armas de sobrevivência. É nessa tensão, entre aquilo que foi dado a ela como fardo e aquilo que pode transformar em poder, que reside o cerne mais interessante da narrativa.
É realmente uma boa releitura?
Em primeiro lugar, eu já vou comentando aos fãs de Macbeth que esse livro tá bem longe do que conhecemos, afinal, a autora opta por uma Lady Macbeth como alguém primeiro forçada, depois tentando jogar o jogo do poder, mas demorando a se impor, insegura, oscilante. O que eu diria ser mais próximo da nossa realidade do que na obra de Shakespeare. Por isso, eu não acho que deveria ser tão considerado releitura (talvez mais inspirado). Muitos dos elementos da obra original estão lá, mas o foco nessa leitura é diferente.
Além disso, em muitos momentos, Roscille existe mais em função das violências que sofre do que em função de suas ações ativas para mudar seu mundo. Mais uma vez, condizente com a realidade histórica do mundo e não é tão simples assim de fazer com que uma mulher seja a grande a heroína. No entanto, com o tempo, ela vai entendo os detalhes essenciais para se salvar, enquanto estivesse naquela realidade.

A tensão constante no ambiente:
Se tem algo que esse livro consegue trazer é a constante tensão, desde a chegada da protagonista no castelo até o final da obra. Na verdade, começa na descrição do castelo de Macbeth, o mar batendo nas pedras, os corredores escuros, o clima de corte fria, traiçoeira, cheia de desconfiança. Reid tem muito cuidado com a atmosfera gótica, já temos o sobrenatural (as bruxas, profecias, magia), a paisagem sombria, tudo converge para criar uma sensação de inquietude e potencial ameaça constante. Essa construção sensorial eleva a leitura, dá peso ao dilema de Roscille, faz com que o leitor sinta o isolamento físico e psicológico dela.
Sem contar que, o livro acerta ao explorar poder e identidade, ambiguidade moral, culpa. Roscille vive sob o peso de expectativas familiares e sociais, de superstições, de papéis femininos impostos, e luta por se definir por si mesma. Reid trata não só de poder como dominação, mas também de como histórias, mitos, boatos (como o de sua maldição ou olhar perigoso) moldam a identidade, limitam ou potencializam uma pessoa. A ambiguidade é um trunfo: nem tudo nela é virtuoso, nem tudo tenebroso. Pois há erros, enganos, arrependimentos. A jornada é menos a de uma vilã em pleno poder do que de uma jovem tentando sobreviver, e, se puder, transformar o mundo que a oprime.
Mas, vale a pena ler Lady Macbeth?
Sim, a obra de Ava Reid é uma releitura ambiciosa, atmosférica e rica em possibilidades. Ela brilha quando constrói seu mundo, suas imagens, seu clima de opressão sobrenatural, e quando permite que sua protagonista seja menos um símbolo e mais uma pessoa vulnerável, forjada por dor, desejo e ambição. Mesmo que seja uma isnpiração na obra de Shakespeare, é uma narrativa que vai te fazer refletir sobre perspectivas femininas.




