Razão e Sensibilidade: uma história de amor, irmandade e força feminina

Existem romances de época que conquistam a gente pelos casais e pela expectativa de um final feliz. Razão e Sensibilidade, nova adaptação do clássico de Jane Austen, tem tudo isso, mas foi outra coisa que mais me marcou: a relação entre duas irmãs que, mesmo enxergando o mundo de maneiras completamente diferentes, encontram uma na outra o apoio de que precisam para seguir em frente.
Dirigido por Georgia Oakley, o filme acompanha Elinor e Marianne Dashwood após a morte do pai, quando a família perde a estabilidade financeira e precisa se adaptar a uma realidade bem diferente daquela que conhecia. Em uma sociedade na qual as mulheres tinham poucas possibilidades de escolha, as duas precisam lidar com questões familiares, expectativas sociais e, claro, desilusões amorosas.
Assisti à pré-estreia e saí encantada, principalmente pelo cuidado com as personagens femininas. A fotografia é lindíssima, a ambientação é um convite para entrar naquele universo e as atuações ajudam a dar vida a relações que vão muito além dos romances. É o tipo de filme que vale assistir com calma, prestando atenção não apenas ao que acontece, mas também aos pequenos gestos entre os personagens.
Uma história sobre amor, perdas e recomeços
Publicado em 1811, o romance de Jane Austen começa com a morte do Sr. Dashwood. Como a propriedade da família fica para John, filho do primeiro casamento do patriarca, Mrs. Dashwood e suas três filhas, Elinor, Marianne e Margaret, precisam deixar a casa onde viviam e recomeçar com muito menos dinheiro.
É nesse momento que as diferenças entre as duas irmãs mais velhas ficam ainda mais evidentes. Elinor tenta manter a compostura e costuma guardar para si o que sente. Marianne, por outro lado, não esconde suas emoções e se entrega ao que vive com muito mais intensidade.
Essa oposição dá nome à história e conduz boa parte dos conflitos, mas não significa que uma esteja certa e a outra errada. As duas têm suas fragilidades, cometem erros e precisam aprender a lidar com as próprias escolhas. E, enquanto os romances movimentam a trama, é a relação entre elas que dá ao filme boa parte de sua força.
Georgia Oakley e o olhar por trás da câmera
A direção de Georgia Oakley é um dos pontos que me chamaram a atenção. Em uma história tão ligada às experiências e às limitações impostas às mulheres, existe um cuidado especial na maneira como as protagonistas são apresentadas.
Elinor e Marianne não precisam concordar em tudo para se amarem. Elas se frustram, discordam e nem sempre sabem como ajudar uma à outra, mas isso não diminui a importância que têm em suas vidas. Gosto especialmente de como o filme não tenta transformar essas diferenças em uma disputa entre a irmã racional e a irmã sentimental. Cada uma tem sua maneira de enfrentar o mundo, e ambas precisam encontrar o próprio caminho.
A narrativa também respeita o tempo dos acontecimentos. As relações não se constroem de uma hora para outra, e o filme encontra espaço para os olhares, as conversas e os momentos mais silenciosos. Para quem gosta de romances de época, esse ritmo combina com a proposta e ajuda a criar uma atmosfera bastante envolvente.
Elinor e Marianne são o coração do filme

Interpretadas por Daisy Edgar-Jones e Esmé Creed-Miles, Elinor e Marianne sustentam boa parte do que torna essa adaptação tão especial.
O contraste entre as duas é evidente, mas o que mais gostei foi perceber como essa diferença não impede que exista carinho, preocupação e vontade de proteger uma à outra. Enquanto Elinor tenta esconder suas dores para não preocupar a família, Marianne vive os próprios sentimentos sem tanta reserva. São maneiras distintas de lidar com as dificuldades, e o filme não precisa escolher uma delas como a melhor.
É muito bom acompanhar uma história em que as mulheres não estão ali apenas para viver um romance. Elas têm vontades, conflitos e relações que existem independentemente dos homens que cruzam seus caminhos. Os envolvimentos amorosos são importantes, mas não resumem quem elas são.
E acho que é justamente por isso que a relação entre as irmãs funciona tão bem. Mesmo quando não conseguem compreender as escolhas uma da outra, elas continuam presentes. Existe uma identificação fácil com esse sentimento de querer proteger alguém, sofrer junto e, às vezes, não saber exatamente o que dizer, mas permanecer ali.
Não é preciso ter uma irmã para se emocionar com essa dinâmica. O filme fala sobre vínculos que resistem às diferenças e sobre como o apoio de alguém pode fazer toda a diferença quando a vida sai dos trilhos.
Mrs. Dashwood e a força de uma mãe que não se curva
Se Elinor e Marianne são o centro emocional da história, Mrs. Dashwood é uma das grandes responsáveis por manter a família unida. Interpretada por Caitríona Balfe (Outlander), ela enfrenta o luto e as dificuldades financeiras sem abrir mão de defender as filhas.
Uma das cenas que mais me marcaram acontece ainda na casa da família. Após a morte do Sr. Dashwood, John assume a propriedade e passa a viver ali com a esposa, Fanny. Nesse ambiente, Elinor é colocada em uma situação constrangedora, acusada de tentar conquistar Edward, irmão de Fanny.
A reação de Mrs. Dashwood diz muito sobre ela. Em vez de aceitar a humilhação da filha ou tentar contornar a situação para manter as aparências, ela decide deixar a casa no dia seguinte. A mudança significa abrir mão de conforto e segurança, mas também representa uma escolha: suas filhas não precisam permanecer em um lugar onde não são respeitadas.
Fanny contribui para tornar a convivência mais difícil, enquanto Mrs. Dashwood mostra que cuidar de alguém nem sempre significa apenas oferecer consolo. Às vezes, é preciso tomar decisões difíceis e enfrentar as consequências para proteger quem se ama.

Os romances e os obstáculos pelo caminho
Os personagens secundários também têm um papel importante na trajetória das irmãs. Edward Ferrars, irmão de Fanny, está ligado à história de Elinor, enquanto Marianne vive uma experiência amorosa que coloca à prova sua maneira de enxergar os sentimentos.
Willoughby é uma figura importante nesse percurso, assim como o Coronel Brandon, interpretado por Herbert Nordrum, que também participa da vida de Marianne.
Sem entrar em spoilers, o filme mostra que se apaixonar nem sempre significa encontrar a felicidade da maneira que imaginamos. Expectativas, decepções e convenções sociais interferem nas escolhas dos personagens, tornando os relacionamentos mais complicados do que parecem à primeira vista.
Ainda assim, o romance não ocupa sozinho o centro da narrativa. O que acontece com cada uma das irmãs também afeta a outra, e é interessante acompanhar como essas experiências acabam aproximando as duas, mesmo quando elas não sabem muito bem como lidar com o que estão sentindo.
A fotografia e a ambientação são um espetáculo à parte
Visualmente, Razão e Sensibilidade é lindíssimo. A fotografia foi um dos aspectos que mais me encantaram, tanto pela composição das cenas quanto pela maneira como os cenários ajudam a construir o clima da história.
Grande parte da trama se passa no interior, mas a chegada das protagonistas a Londres traz uma mudança interessante para a narrativa. Os ambientes, os figurinos e os detalhes da direção de arte ajudam a diferenciar esses espaços e a situar as personagens em realidades sociais distintas.
A trilha sonora também contribui para a experiência, acompanhando os momentos mais delicados sem tirar o foco do que está acontecendo. E gostei de como o humor aparece ao longo do filme, principalmente nos diálogos e nas situações que expõem as convenções sociais da época. Esse equilíbrio impede que a história fique excessivamente dramática e preserva uma característica muito presente na obra de Jane Austen: a capacidade de observar as contradições da sociedade com certa ironia.
Uma nova adaptação de um clássico de Jane Austen
Adaptar Razão e Sensibilidade é lidar com uma obra que já tem um lugar especial entre os leitores e cinéfilos. O romance de 1811 ganhou uma versão bastante conhecida em 1995, dirigida por Ang Lee, com roteiro de Emma Thompson, que também interpretou Elinor Dashwood. O filme recebeu sete indicações ao Oscar e venceu na categoria de Melhor Roteiro Adaptado.
A nova produção também desperta curiosidade pela equipe envolvida. Os produtores Tim Bevan e Eric Fellner e a produtora Working Title, responsáveis por esta adaptação, também estiveram ligados a Orgulho e Preconceito (2005), outro título querido pelos fãs de romances de época.
Revisitar uma história tão conhecida sempre traz o desafio de encontrar algo próprio sem perder o que fez o original atravessar gerações. Aqui, o destaque dado às relações entre as mulheres ajuda a renovar o interesse pela trajetória das irmãs Dashwood. Afinal, embora os costumes e as circunstâncias sejam outros, os conflitos relacionados à família, às expectativas e à busca por autonomia continuam encontrando identificação no público.
Afinal, vale a pena assistir a Razão e Sensibilidade?
Para quem gosta de Jane Austen, romances de época e histórias centradas em personagens femininas, minha resposta é sim. A fotografia belíssima, as atuações e a ambientação tornam o filme um programa especialmente agradável para quem aprecia narrativas que não precisam correr para chegar ao próximo acontecimento.
O que mais gostei, porém, foi a maneira como a relação entre Elinor e Marianne permanece importante mesmo quando os romances ganham espaço. São duas mulheres muito diferentes, que nem sempre sabem como lidar com os sentimentos uma da outra, mas que encontram na família uma forma de acolhimento em meio às dificuldades.
É uma história que conversa especialmente com o público feminino por colocar em cena as limitações enfrentadas pelas mulheres, suas escolhas e os vínculos que constroem. Isso não significa que a experiência se restrinja a esse público, mas é impossível ignorar a força que essas questões têm na narrativa. Minha recomendação é assistir sem esperar apenas uma história de amor convencional. Vale prestar atenção às relações familiares, aos pequenos gestos e às escolhas que as personagens fazem quando precisam abrir mão de algumas certezas.
No fim, o que fica para mim é a ideia de que o amor não se manifesta de uma única maneira. Ele está nos romances, claro, mas também na mãe que decide defender as filhas e nas irmãs que continuam ao lado uma da outra, mesmo sem entender completamente suas escolhas. É nessa relação entre Elinor e Marianne que encontrei o aspecto mais bonito desta adaptação. Elas não precisam ser iguais para se compreender, nem concordar em tudo para permanecer unidas. E, em uma história marcada por perdas e recomeços, essa talvez seja uma das formas mais bonitas de amor.
Razão e Sensibilidade estreia dia 29 de outubro nos cinemas




