Outer Banks: um final digno, mas uma temporada irregular

alaSe eu disser que não estava animada para a última temporada de Outer Banks, estaria mentindo. Porém, se eu disser que estava mega animada, também estaria. A verdade é que a 5ª temporada chegou acompanhada de um verdadeiro misto de sentimentos. Depois do final da 4ª temporada e de todas as especulações, comentários e expectativas que surgiram durante a divulgação da temporada final, era impossível não ficar ansiosa para descobrir o que a série faria com o caminho que havia escolhido seguir. Ao mesmo tempo, existia também uma certa tristeza. Afinal, estávamos chegando ao fim de uma série que acompanhamos durante anos, conhecendo cada vez mais os personagens que fizeram parte daquele universo. Então, havia aquela vontade de descobrir como tudo terminaria, mas também aquele sentimento inevitável de despedida.
Mas antes de falar propriamente sobre a 5ª temporada, precisamos relembrar de onde essa história parte. Vem comigo, mas atenção: o texto contém spoilers!
Conheça a história da 5ª temporada de Outer Banks
A quinta e última temporada de Outer Banks começa depois dos acontecimentos devastadores da 4ª temporada. Os Pogues estão lidando com a morte de JJ e, ao mesmo tempo, precisam seguir em frente com a promessa de vingança feita no final da temporada anterior. Agora, a busca pela coroa e o confronto com Chandler Groff colocam o grupo diante de uma última aventura, enquanto cada um precisa lidar à sua maneira com tudo o que aconteceu.
A missão, entretanto, não é apenas recuperar a Coroa Azul. Existe também a necessidade de entender o que fazer depois de tudo o que passaram e, principalmente, como continuar sendo os Pogues sem um dos integrantes mais querido daquele grupo.

A morte de JJ
A morte de JJ é uma questão muito delicada, principalmente porque estamos falando de um personagem que foi crescendo ao longo das temporadas. Na primeira temporada, temos muito mais foco na história de John B e Sarah, mas, conforme a série avança. E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores forças da série. JJ começa como aquele personagem rebelde, impulsivo, que causa desconforto na relação com o pessoal da cidade e que muitas vezes funciona como o alívio cômico do grupo. Só que, ao longo das temporadas, percebemos que ele é muito mais do que isso.
Na terceira temporada, já temos uma introdução muito maior sobre quem é aquele personagem tão carismático e, ao mesmo tempo, tão rebelde. Mas é principalmente na 4ª temporada que a série mergulha de verdade na história de JJ, na relação complicada com o pai e em tudo aquilo que existe por trás daquele comportamento. JJ não era apenas o alívio cômico de Outer Banks, era um personagem profundo, com muita história para ser explorada e com uma trajetória que fez com que ele se tornasse um dos personagens mais queridos da série. Além de existir a relação dele com Kiara.
Por isso, quando chegamos ao final da 4ª temporada e vemos Chandler Groff matar o próprio filho, tudo muda. JJ entrega a coroa para proteger Kiara, mas Groff ainda assim decide matá-lo. Kiara presencia a cena e fica completamente destruída.
Sem dúvida, a morte de JJ cria um problema narrativo enorme para a série. Não dava para simplesmente apagar a existência do personagem e mandar todo mundo seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Ao mesmo tempo, também não dava para ficar apenas em cima disso. E talvez esse tenha sido um dos pontos que mais me intrigaram nessa última temporada.

Como seguir sem JJ?
Eu entendo que a 5ª temporada precisava dar um rumo para os personagens depois daquela morte. Precisava mencionar JJ, mostrar como aquela perda afetou o grupo e seguir com a ideia de vingança estabelecida no final da 4ª temporada. O problema é que a narrativa dessa última temporada ficou muito presa nisso. JJ era um personagem importante, mas ele não precisava estar ali o tempo inteiro.
A série poderia ter trabalhado a memória dele, o luto dos personagens e a importância daquela perda sem transformar JJ praticamente em um fantasma constante, principalmente para Kiara. A primeira lembrança da infância, por exemplo, funciona. É uma maneira bonita de mostrar o passado e lembrar quem aquele personagem era. Mas, quando isso começa a acontecer repetidamente, a sensação é de que a série não consegue se desprender da morte dele para seguir com a própria história.
Na minha opinião, se eles tivessem trabalhado a morte do personagem de maneira mais intensa nos três primeiros episódios e depois seguido adiante, teria sido suficiente. O restante da temporada poderia ter se concentrado muito mais no desfecho da história dos Pogues. Porque o problema não é a presença de JJ na narrativa, o problema é o excesso.
Kiara perdeu justamente aquilo que fazia dela uma personagem tão boa
E quem mais sofre com essa escolha do roteiro é Kiara. Uma das personagens mais legais da série recebe um destaque enorme na temporada final, mas esse destaque acaba sendo, para mim, extremamente chato. Kiara passa boa parte da história presa naquela angústia de “precisamos pegar a coroa”, “precisamos nos vingar”, “eu preciso matar o Groff”. E, muitas vezes, parecia que ela simplesmente não pensava nas pessoas que estavam ao redor.
Isso me incomodou especialmente porque Kiara sempre foi uma das personagens mais racionais daquele grupo. Ela era impulsiva, sim, e isso nunca foi novidade. Mas existia uma racionalidade dentro daquela impulsividade. Nessa temporada, entretanto, ela parece completamente cega pela vingança. Não acredito que essa fosse necessariamente a essência da relação entre Kiara e JJ. O que fazia os dois funcionarem era justamente a conexão que existia entre eles, a compreensão e a forma como um enxergava o outro.
Transformar Kiara em uma personagem completamente obcecada pela possibilidade de trazer JJ de volta e pela vingança acabou tirando dela justamente algumas das características que fizeram o público gostar tanto dela. E isso fica ainda mais evidente quando comparamos a maneira como ela reage às situações com o restante do grupo.
Sarah, por exemplo, está grávida e passando por situações extremamente complicadas. Ela sofre, precisa se colocar em perigo, fica sem casa com John B, dorme na chuva e enfrenta uma série de situações que deveriam pesar muito mais na dinâmica do grupo. Pope também está vivendo um dos momentos mais difíceis de toda a sua trajetória e, para mim, ele é justamente o personagem que mais faz sentido nessa temporada.

Pope mantém a essência do personagem
Falando no Pope, ele sempre foi o mais certinho e o mais inteligente. Ele queria construir uma vida, trabalhar, fazer as coisas de maneira diferente. Então, quando ele se vê diante do fato de que matou uma pessoa pela primeira vez, faz todo sentido que passe por aquele conflito interno. Além disso, Cleo está longe, e existe toda uma dificuldade emocional acontecendo naquele momento. O arco de Pope funciona porque a temporada permite que ele passe por esse conflito sem abandonar quem ele sempre foi. E isso fica muito claro no final.
Cleo é outra personagem de quem eu gosto muito e que foi crescendo ao longo das temporadas. Ela foi conquistando seu espaço, fazendo sentido dentro daquele elenco e dentro daquela narrativa. E, quando ela não está presente, existe uma sensação de que está faltando alguém. Eu entendo, de certa forma, que talvez a série tenha escolhido priorizar o quarteto principal em determinados momentos, principalmente considerando que estávamos falando da despedida de JJ. Mas, ainda assim, Cleo fez falta.
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Rafe salvou a temporada
E aí chegamos a uma das maiores surpresas para mim: Rafe. Eu digo surpresa mesmo sabendo que ele é outro personagem que foi evoluindo e se desenvolvendo ao longo das temporadas.
Rafe começou como um personagem que causava muitos problemas e que era praticamente odiado. Só que a série foi trabalhando esse personagem, mostrando outras camadas e construindo uma redenção que, para mim, funcionou justamente porque não apaga completamente quem ele foi. E foi a história de Rafe que, de certa forma, salvou a 5ª temporada.
Não apenas pelo personagem em si, mas porque o arco dele traz um outro panorama para a temporada. Um outro olhar, uma outra situação. Ele acrescenta alguma coisa além daquela repetição de vingança, coroa e tesouro. E isso era justamente o que eu queria ver no desfecho da série.
Além disso, o final dado a ele também foi muito coerente com a personalidade e com tudo o que o personagem viveu. Ele causou problemas durante boa parte da série, foi responsável por situações terríveis e, depois, teve seu processo de redenção. Mesmo assim, ele não termina simplesmente feliz ao lado da família, como se tudo estivesse resolvido.

Afinal, eles realmente queriam a coroa?
Outro problema que senti na temporada está na motivação do grupo. Em boa parte da história, temos aquela mesma dinâmica de sempre: eles estão atrás de tesouro, atrás de ouro, atrás de alguma coisa que precisam encontrar. Só que, dessa vez, existe uma sensação de que John B, Sarah e Pope não sabem exatamente pelo que estão indo atrás.
Na minha visão, eles estavam seguindo Kiara. Que por sua vez queria vingança, a coroa e tentar entender se existe alguma possibilidade de trazer JJ de volta. E os outros parecem estar ali muito mais pela amizade. John B, por exemplo, tinha suas próprias motivações e olhando para os diálogos, s comportamento e as expressões do personagem, eu tive a sensação de que talvez ele não quisesse se arriscar daquela maneira. E isso é uma análise minha, obviamente.
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A série consegue fechar suas histórias
Apesar de todos esses problemas, uma coisa que eu gostei muito foi perceber que a série realmente tentou dar um desfecho para as situações que criou ao longo das temporadas. Temos a resolução do ouro, da coroa e de tudo aquilo que levou aqueles personagens a chegarem onde chegaram. E isso é importante, porque Outer Banks começou justamente com aqueles meninos atrás de uma aventura, atrás de um tesouro e tentando encontrar algo que pudesse mudar suas vidas. Então, poder ver essas histórias chegando ao fim é muito satisfatório.
Gostei da resolução da tempestade como uma metáfora muito bonita sobre limpar tudo, mudar as coisas e, de certa forma, acabar com aquela separação entre Kooks e Pogues. A série sempre trabalhou essa divisão social e cultural entre os dois grupos. Por isso, achei interessante que o encerramento utilizasse justamente esse elemento para simbolizar uma mudança e que no fim todos eram iguais.
E claro, o final traz de volta aquilo que sempre foi a essência da série: a amizade. Mesmo depois de todas as aventuras, perdas, brigas, tesouros, romances e perigos, o que realmente permanece são eles. A cena final, principalmente, funciona muito bem para mim. A festa, todos reunidos, comemorando e finalmente vivendo aquele momento de paz depois de tudo o que enfrentaram. Existe uma sensação de que aqueles personagens finalmente conseguiram aquilo que estavam procurando desde o começo, mesmo que tenham chegado até ali por caminhos completamente diferentes.
E é justamente por isso que, olhando para a série como um todo, eu consigo dizer que Outer Banks fecha bem.

Uma despedida que funciona, mesmo com uma temporada irregular
A 5ª temporada, porém, está longe de ser uma das melhores. Para mim, a segunda e a terceira são perfeitas, maravilhosas e representam o melhor que a série conseguiu fazer. A 4ª temporada já tem seus problemas, mas a quinta deixa muito a desejar principalmente por causa da falta de ritmo e desse excesso de tentar manter JJ presente na cabeça dos personagens.
Eu entendo que a série precisava encontrar uma maneira de trabalhar a ausência dele sem fazer com que a história inteira ficasse presa à sua morte. E acho que foi justamente a dificuldade de desenvolver o roteiro sem um dos personagens centrais que levou a 5ª temporada para esse caminho. Não é necessariamente um caminho ruim, mas foi um caminho chato, cansativo e, principalmente, um caminho que fez uma das personagens mais queridas da série perder praticamente a própria personalidade.
No fim das contas, a 5ª temporada é uma história de altos e baixos. Tem momentos muito bons, momentos cansativos e uma parte central que poderia ter sido muito melhor trabalhada. Mas, quando chega a hora de se despedir, Outer Banks consegue entregar aquilo que a gente precisava. O final é bonito, simbólico e, acima de tudo, fecha a jornada desses personagens.
Talvez a melhor maneira de resumir essa última temporada é dizendo que o problema não está no destino, mas no caminho escolhido para chegar até ele. Outer Banks termina bem, entrega o que os fãs precisam, mas poderia ter concluido a história de uma maneira muito melhor.




