O Beijo da Mulher Aranha: Um musical confuso?

Sendo mais uma obra para a história de Manuel Puig, O Beijo da Mulher Aranha tem um filme interesante, mas com um lado musical confuso. Dirigido por Bill Condon e protagonizado por Diego Luna e Tonatiuh, o mérito da obra são suas reflexões sobre identidade, sexualidade, marginalização, crítica social e política. Por isso, vamos falar sobre O Beijo da Mulher:
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Um pouco de contexto:
O Beijo da Mulher Aranha já tinha uma versão adaptação cinematográfica de 1985, realizada por Héctor Babenco e protagonizada por William Hurt e Raul Juliá. Ambas produções vieram do romance homónimo de Manuel Puig, publicado em 1976, uma obra fundamental da literatura latino-americana pela forma como articula política, sexualidade e imaginário cinematográfico. Em 2025, a história ganha uma nova leitura, agora em formato musical, inspirada também na peça homónima da Broadway, com música de Kander e Ebb (Cabaret, Chicago), realização de Bill Condon (Dreamgirls) e protagonismo de Diego Luna e Tonatiuh.
Para quem não conhece, Valentín (Diego Luna) é um preso político da ditadura argentina nos anos 80 que divide cela com Molina (Tonatiuh), um ex-decorador de vitrines que foi detido por atentado ao pudor. Reconhecido como um homem gay, Molina passa a narrar para o seu companheiro as histórias de seu musical de Hollywood favorito, um drama colorido e espetacular protagonizado por sua atriz predileta Ingrid Luna (Jennifer Lopez). Logo, um forte vínculo se forma entre a dupla, enquanto Molina tenta escapar da realidade política brutal através da imaginação.
Identidade, sexualidade e política:

Apesar do rótulo de musical, o maior mérito do filme reside na força temática que atravessa a narrativa. O Beijo da Mulher Aranha continua profundamente comprometido com questões de identidade, sexualidade, marginalização e crítica social e política. A prisão, espaço central da ação, funciona menos como cenário físico e mais como metáfora dos mecanismos de repressão, tanto do Estado autoritário quanto do capitalismo, que molda subjetividades e impõe normas de comportamento.
A obra de Bill Condon mergulha na essência dos grandes musicais do cinema clássico para tecer uma ponte entre fantasia e realidade, com o companheirismo, sacrifício e resistência a unir duas figuras distintas com o mesmo destino. Molina e Valentín são opostos no mundo interior em que se fecham e nas motivações que os movem — um refugia-se no sonho de glamour e fantasia do celuloide, o outro na luta política. É, porém, na prisão e opressão que encontram um propósito comum: sobreviver com dignidade.
Tonatiuh é a estrela do filme:
No mesmo contexto, Tonatiuh é quem verdadeiramente rouba todos os holofotes. A sua atuação como Molina é o coração pulsante do filme. Ele encarna com sensibilidade e intensidade uma jornada de autodescoberta e de resistência íntima à violência da detenção. Molina refugia-se no cinema clássico como forma de abstração e fuga, mas também como afirmação da sua identidade: ao narrar filmes antigos, povoados por mulheres fatais e melodramas exagerados, ele cria um espaço simbólico onde pode existir plenamente, longe da brutalidade do mundo real.
Essas histórias, contadas a Valentín, interpretado por Diego Luna, tornam-se gradualmente um campo de confronto ideológico. Valentín, preso político, acusa Molina de não se valorizar e de não reconhecer os mecanismos de opressão mental capitalista que o mantêm aprisionado mesmo para além das grades. Entre os dois, surgem debates intensos, conflitos e desconfianças, mas também uma aproximação inevitável. A relação que se constrói ultrapassa a política e as diferenças ideológicas, fundamentando-se, sobretudo, na lealdade, no respeito mútuo e, por fim, no amor. O filme é particularmente eficaz ao mostrar que a transformação de ambos não se dá por discursos prontos, mas pelo encontro humano.
O que prejudica o filme são as cenas musicais:

Se Tonatiuh sustenta o drama com uma performance magnética, a vertente musical do longa é justamente o seu ponto mais frágil. Embora as sequências musicais funcionem como uma clara homenagem ao cinema dos anos 40, com estética glamorosa e referências ao musical clássico de Hollywood, falta um elemento que as torne verdadeiramente cativantes, sedutoras e fantásticas. Há uma sensação de que algo não se concretiza por completo, como se o espetáculo nunca alcançasse o nível de encantamento que promete.
Essa fragilidade torna-se ainda mais evidente na participação de Jennifer Lopez. A sua personagem tinha todos os elementos para brilhar dentro da narrativa simbólica do filme, mas a interpretação revela-se surpreendentemente monótona. Em vez de elevar as cenas musicais a momentos de arrebatamento emocional ou imagético, a sua presença acaba por parecer fraca e pouco inspirada, o que contribui para a sensação de oportunidade desperdiçada.
Vale a pena assistir O Beijo da Mulher Aranha?
No conjunto, O Beijo da Mulher Aranha reafirma a relevância da história de Manuel Puig para o presente, mostrando que as discussões sobre repressão, identidade e afeto continuam urgentes. Mesmo com limitações na sua dimensão musical, o filme encontra força na intimidade das relações e, sobretudo, na atuação arrebatadora de Tonatiuh, que transforma Molina numa figura inesquecível, alguém que resiste, ama e se reinventa através do poder da imaginação e do cinema.




