Feito Pipa é o melhor filme brasileiro de 2026?

Representante do Brasil na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional, Feito Pipa é daqueles filmes que parecem pequenos em sua premissa, mas carregam dentro de si discussões enormes sobre amor, resistência, perda, preconceito e esperança. Dirigido por Allan Deberton, o longa acompanha Gugu, um menino de 11 anos que vive no interior do Nordeste ao lado da avó Dilma, enquanto precisa lidar simultaneamente com o preconceito do pai e dos colegas e com o avanço do Alzheimer da pessoa que representa seu porto seguro.
OBS: O filme está em circulação no Festival do Rio e estreia no dia 5 de novembro.
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Um Nordeste visto pelo brilho, não apenas pela dureza
Existem filmes que retratam o interior do Nordeste brasileiro pela lente da dureza: a seca, a pobreza, a violência e a falta de oportunidades. Feito Pipa escolhe outro caminho e, ao fazer isso, entrega uma das experiências mais bonitas do cinema brasileiro em 2026. O filme olha para essa mesma região e encontra espaço para brilho, glitter e liberdade.
Gugu, vivido por Yuri Gomes, é uma criança que não cabe em uma única caixa. Ele gosta de futebol e também gosta de maquiagem. Dança com o mesmo entusiasmo com que joga bola. É afeminado, orgulhoso do próprio jeito de ser e, principalmente, não enxerga sua identidade como um problema. O roteiro também não enxerga.
Essa talvez seja uma das maiores virtudes do longa. O filme não transforma Gugu em uma criança que precisa ser “consertada”, tampouco constrói sua personalidade como um conflito que precisa ser resolvido. O problema está fora dele: está no mundo que ainda não aprendeu a recebê-lo. E Yuri Gomes entende isso de maneira impressionante. Afinal, existe espontaneidade em Gugu, mas também existe uma tristeza que aparece aos poucos, conforme ele percebe que ser livre dentro de casa não significa necessariamente estar protegido fora dela.

Entre o confronto e o conforto:
É nesse ponto que Feito Pipa acerta onde tantos outros filmes poderiam errar. Em vez de dividir seus personagens entre vilões e mocinhos, Allan Deberton aposta na complexidade — especialmente quando constrói Batista, pai de Gugu, interpretado por Lázaro Ramos. Batista poderia facilmente ser o antagonista óbvio: o pai homofóbico que rejeita o próprio filho. Mas o filme se recusa a seguir esse caminho mais simples. Batista ama Gugu. O problema é que existe um preconceito que ele carrega e não consegue atravessar sozinho. E essa contradição torna o personagem muito mais interessante e doloroso.
Se Batista representa o conflito, Dilma é o abrigo. Vivida por Teca Pereira em estado de graça, a avó é a pessoa que oferece a Gugu aquilo que ele mais precisa: liberdade para existir. Mas esse lugar seguro começa a desmoronar quando Dilma apresenta os primeiros sinais de Alzheimer. A personagem, teimosa e determinada a preservar a própria independência, se recusa a tratar a doença. Para Gugu, entretanto, esconder a situação se torna uma questão de sobrevivência.
Ele teme perder a avó e, junto com ela, perder o único espaço onde consegue ser completamente livre. É nesse momento que Feito Pipa também se transforma em um coming of age — só que um coming of age cruelmente precoce. Gugu passa a cuidar da casa, ajudar Dilma com os sintomas e administrar situações que nenhuma criança de 11 anos deveria precisar administrar. Sua infância começa a ser abreviada às pressas. E o filme encontra muita força justamente nesse contraste: Gugu está descobrindo quem é enquanto também precisa lidar com a possibilidade de perder quem o ensinou a ser.
Um filme que nasceu de uma experiência real

Se tem um detalhe que podemos comentar e que torna Feito Pipa ainda mais especial, é que o roteirista André Araújo se inspirou na própria infância como menino afeminado no interior nordestino para construir a história. E isso explica muito da autenticidade do filme.
Gugu não parece um personagem criado para representar uma ideia. Ele parece uma memória transformada em cinema. O projeto funciona quase como uma carta de amor ao menino que André foi e ao interior que gostaria de ter vivido: um lugar onde ser diferente não significasse estar sozinho. Por isso, quando Gugu dança, joga bola ou coloca maquiagem, existe algo muito maior acontecendo. Não é apenas uma criança se divertindo. É uma criança ocupando o espaço que disseram que não era dela.
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Vale a pena assistir Feito Pipa?
No fim, Feito Pipa é um filme sobre perdas, mas não é um filme sem esperança. Sua maior beleza está justamente em tratar seus personagens com generosidade. Gugu recebe essa ternura, mas Batista também recebe. Dilma também. Até mesmo aqueles que erram são apresentados como pessoas complexas, atravessadas por suas próprias limitações. O filme não ignora a violência do preconceito, mas também não acredita que seus personagens precisem ser reduzidos àquilo que há de pior neles. E talvez seja exatamente por isso que a experiência seja tão emocionante. Sem contar que é a chance de dar esperança de que crianças queer no interior do Brasil possam se enxergar na tela. Feito Pipa estreia dia 5 de novembro.




