Furnas Fundas: Uma fábula gótica brasileira- vale a pena?

Furnas Fundas: Uma fábula gótica brasileira chega apostando em uma combinação pouco convencional: o humor e o horror gótico. Aliás, o filme constrói uma narrativa marcada pelo absurdo, pelo macabro e pela sátira, enquanto aborda temas como manipulação política e vícios em álcool. Entre o riso e o desconforto, a produção encontra uma maneira própria de dialogar com a tradição do terror brasileiro.
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Qual é a história do filme?
Existe algo particularmente interessante em Furnas Fundas: Uma Fábula Gótica Brasileira: o filme entende que não precisa escolher entre ser uma comédia ou uma história de horror. Sob a direção de Beto Marquez, a produção encontra justamente no equilíbrio entre os dois gêneros a sua principal força, transformando uma pequena cidade do interior em palco para uma história que mistura vampiros, política, álcool e conflitos sociais. O resultado é uma obra que abraça o absurdo sem abandonar o comentário sobre problemas bastante reconhecíveis do cotidiano brasileiro.
A trama acompanha Furnas Fundas durante uma eleição municipal que coloca moradores, famílias e amigos em lados opostos. Enquanto a disputa política toma conta da cidade, uma ameaça sobrenatural começa a despertar, fazendo com que os personagens precisem lidar não apenas com os conflitos provocados pela eleição, mas também com criaturas que parecem ter saído diretamente de uma história de horror.
Um filme com elementos clássicos do gótico:

É justamente nessa mistura que Beto Marquez demonstra segurança na direção. Furnas Fundas não tenta transformar seus elementos góticos em algo excessivamente sério, tampouco utiliza a comédia apenas como alívio entre momentos de terror. Os dois gêneros caminham juntos durante boa parte da narrativa, fazendo com que uma situação potencialmente assustadora possa se transformar em uma piada, enquanto uma cena aparentemente absurda também carrega uma crítica bastante clara.
O filme ainda demonstra carinho pelo próprio imaginário do horror. As referências aparecem de diferentes maneiras, desde a narração que remete à tradição literária de Edgar Allan Poe até a presença de elementos que evocam diretamente o cinema de José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão. O resultado é uma espécie de carta de amor ao gênero, mas filtrada por uma identidade brasileira e interiorana.
Essa identidade também aparece na construção visual. As aparições sobrenaturais recebem uma abordagem estética diferente, com momentos em preto e branco que aproximam o filme do expressionismo e dos clássicos do cinema de vampiros. O interessante é que o fantástico não parece deslocado daquele universo. Ele nasce da própria cidade e passa a fazer parte daquele cotidiano como se fosse apenas mais um dos problemas que os moradores precisam enfrentar.
Uma sátira com assuntos atuais:
Mas é na sátira política que Furnas Fundas encontra seu comentário mais afiado. A eleição não serve apenas como pano de fundo para a chegada dos vampiros: ela é utilizada para mostrar como a política pode ser transformada em instrumento de manipulação, divisão e disputa de poder. A produção não precisa se prender a figuras ou partidos reais para fazer essa crítica. Seu foco está no comportamento dos personagens e na maneira como discursos, promessas e interesses pessoais conseguem colocar uma comunidade inteira em conflito.
O filme também encontra espaço para abordar outro problema: o consumo excessivo de álcool. Em Furnas Fundas, a bebida está tão incorporada à rotina dos moradores que passa a fazer parte da própria caracterização daquele lugar. A escolha funciona tanto para provocar humor quanto para apresentar uma população que parece anestesiada diante dos problemas ao seu redor.
Um elenco que completa a narrativa:
E o elenco entende perfeitamente o tom proposto pela produção. Gabriela Dias conduz Bartira com uma energia que ajuda a estabelecer o olhar do público sobre aquela cidade, enquanto Eriberto Leão, como Kesabel, e Elisa Volpatto, como Lilith, aproveitam o exagero necessário para personagens que transitam pelo universo vampiresco. Johnnas Oliva, como Luan, também contribui para a dinâmica do grupo, equilibrando o absurdo da situação com uma presença mais próxima do cotidiano.
Otávio Müller, por sua vez, encontra em Marcão um personagem que funciona muito bem dentro da sátira. O ator utiliza o exagero e o carisma para construir um político que representa justamente essa transformação da disputa eleitoral em espetáculo. Ao lado dele, os demais integrantes do elenco ajudam a manter o ritmo e a ampliar o universo da cidade, fazendo com que Furnas Fundas pareça habitada por figuras tão excêntricas quanto reconhecíveis.
Vale a pena assistir Furnas Fundas: Uma Fábula Gótica Brasileira?
No fim, Furnas Fundas: Uma Fábula Gótica Brasileira funciona porque não tem vergonha de ser estranho. Beto Marquez mistura vampiros, política, alcoolismo, humor, referências ao horror clássico e elementos da cultura brasileira sem tentar suavizar suas próprias contradições. Nem todas as ideias possuem o mesmo impacto e, em determinados momentos, a quantidade de elementos pode deixar a narrativa um pouco irregular, mas existe personalidade suficiente para sustentar a proposta.
Mais do que uma história sobre criaturas sobrenaturais, Furnas Fundas usa o fantástico para falar de problemas que já estavam presentes naquela cidade antes mesmo da chegada dos vampiros. Afinal, quando a política vira manipulação, a população se divide e os excessos passam a ser tratados como parte da rotina, talvez o verdadeiro horror nem precise sair das sombras.





