Consequências Paralelas: Simples e forte!

Para fazer ficção científica, não precisa ser um projeto grandioso e Consequências Paralelas prova justamente isso. Dirigido e escrito por Gabriel França e Cd Vallada, ambos estreantes no formato, o longa nacional mistura drama, suspense e ficção científica em uma proposta extremamente econômica: um cenário, três atores e praticamente nenhum efeito especial. E, ainda assim, encontra maneiras bastante inventivas de prender a atenção do espectador.
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Uma ficção científica que precisa de pouco para impressionar:
A história acompanha Pedro (João Fenerich), Max (Felipe Hintze) e Bruna (Carol Macedo), que chegam à casa de campo que pertencia à mãe falecida da jovem. O que parecia ser apenas uma visita acaba tomando outro rumo quando os três descobrem uma poltrona capaz de funcionar como uma espécie de máquina do tempo.
A partir daí, passado, presente e futuro começam a se misturar, enquanto os personagens precisam lidar não apenas com as consequências de suas viagens temporais, mas também com os sentimentos e segredos que carregam entre si. É uma premissa que poderia facilmente exigir grandes recursos de produção, mas França e Vallada fazem uma escolha diferente: transformam a limitação espacial em linguagem cinematográfica.
Quando o cinema encontra o teatro:
O resultado é um filme que se aproxima bastante do teatro, especialmente por trabalhar com um único ambiente e colocar boa parte do peso narrativo sobre os atores. Essa influência fica evidente logo em um dos grandes momentos do longa: um plano-sequência de quase 20 minutos que acompanha a chegada do trio à casa. A câmera se movimenta continuamente pelo ambiente, circulando os personagens e revelando gradualmente não apenas o espaço, mas também as relações entre eles.
Os três atores ocupam diferentes pontos do cenário e formam arranjos cuidadosamente coreografados, criando uma espécie de dança dentro daquele espaço. A sequência funciona como uma apresentação do próprio mecanismo de Consequências Paralelas. Ao mesmo tempo em que somos introduzidos aos personagens e ao conceito da ficção científica, também entendemos que estamos diante de uma produção que aposta no trabalho corporal, na movimentação e na presença dos intérpretes. É quase como assistir a uma peça de teatro filmada com uma câmera que se recusa a ficar parada.

Uma viagem no tempo guiada pelo mistério e espelho das relações humanas:
O roteiro também encontra uma maneira inteligente de organizar a complexidade temporal da história. Embora os três protagonistas eventualmente façam viagens, Max se torna o principal ponto de referência para o espectador. Quando ele se senta na poltrona e viaja para o passado, acompanhamos sua experiência de maneira mais direta. Quando Pedro e Bruna realizam suas próprias viagens, a narrativa adota uma perspectiva mais distante. Essa escolha é importante porque é justamente em Max que se concentra boa parte do mistério moral do filme. Quando Pedro retorna de uma viagem afirmando que o amigo fez algo “imperdoável” no futuro de onde veio, mas se recusa a explicar exatamente o que aconteceu, a dúvida passa a acompanhar o espectador.
A questão ganha ainda mais força por causa da relação entre os três. Max nutre sentimentos por Bruna, apesar de ser casado, e essa tensão amorosa funciona como uma espécie de combustível para o conflito. Conforme as viagens temporais se acumulam e novas informações sobre o futuro aparecem, o que inicialmente parecia ser apenas uma história sobre viagem no tempo se transforma em um drama sobre ciúme, ressentimento, inveja, projeção e egoísmo. É aí que o filme encontra seu principal mérito. A ficção científica não existe apenas como um mecanismo narrativo para criar situações impossíveis. Ela serve para colocar os personagens diante das consequências de suas próprias escolhas. Cada viagem abre uma nova possibilidade, mas também cria novos conflitos, fazendo com que a trama avance menos pela grandiosidade de seus conceitos e mais pelas relações humanas que estão no centro dela.
Três atores carregando toda a história:

França e Vallada constroem, assim, algo próximo de uma peça de teatro de câmara, sustentada pelo melodrama e por uma premissa fantástica. E a estratégia funciona porque o filme entende que, em uma produção tão dependente do diálogo e da interação entre seus protagonistas, os atores precisam carregar boa parte da experiência. João Fenerich, Felipe Hintze e Carol Macedo assumem essa responsabilidade com bastante segurança. Especialmente no início, existe uma quantidade considerável de informações que precisam ser apresentadas para que o público compreenda as regras daquele universo.
É muita exposição, e o risco de transformar a narrativa em uma longa explicação sobre viagem no tempo é grande. O trio, porém, consegue manter a tensão dramática na maior parte do tempo. Existem alguns momentos em que a coreografia dos movimentos parece excessivamente perceptível, lembrando ao espectador que tudo aquilo foi cuidadosamente ensaiado. Mas, quando o filme encontra sua intensidade, os atores conseguem fazer com que as emoções pareçam maiores do que o próprio espaço em que estão confinados.
O lado mais humano da obra:
E talvez seja justamente essa a grande surpresa de Consequências Paralelas. Por trás da máquina do tempo, das possibilidades científicas e das discussões quase filosóficas sobre passado, presente e futuro, existe uma história bastante humana sobre pessoas tentando justificar os próprios desejos.
O filme fala sobre o modo como podemos transformar lealdade em posse, amor em obsessão e ressentimento em justificativa. Além disso, comenta sobre o egocentrismo que pode existir mesmo dentro de relações aparentemente baseadas em amizade e sobre como determinadas escolhas podem ganhar novos significados quando acreditamos que estamos diante de um futuro inevitável.
Sim, vale a pena assisitir Consequências Paralelas!
Mais do que impressionar por aquilo que tem, Consequências Paralelas chama atenção por aquilo que consegue fazer com tão pouco. Um cenário, três atores e uma câmera são suficientes para Gabriel França e Cd Vallada construírem uma ficção científica que aposta na criatividade em vez da escala.
O resultado é um daqueles filmes que lembram por que o cinema também pode existir como espaço de experimentação. Consequências Paralelas não precisa de grandes efeitos para falar sobre grandes ideias. Seu verdadeiro efeito especial está na capacidade de transformar um espaço limitado em diferentes tempos, possibilidades e conflitos. É um pequeno filme em escala, mas bastante ambicioso em sua proposta e uma demonstração interessante de como a invenção pode ser muito mais importante do que o orçamento quando existe uma boa ideia por trás da câmera.




