Com a proposta de trazer um jogos de mistério que domina os leitores, Luciana de Gnone apresenta mais sobre “Assassinato no Parque Lage”. Além de comentar a história, ela comentou sobre o processo e estrutra de criar algo enigmático e único. Com exclusividade ao Manual Geek, ela relatou sobre sua participação na Bienal do Livro 2025 e o desenvolvimento da sua obra:
Foi uma novidade para mim, eu sou autora de ficção policial, tenho 6 livros publicados, mas nunca havia escrito um jogo imersivo, foi algo muito novo para mim. As minhas editoras chegaram com essa proposta, num tempo recorde, porque tinha 2 meses antes da Bienal e tem todo o processo editoral também. Efetivamente, eu tinha 15 dias para escrever o jogo, para montar, criar e escrever todo o material.
Apesar de não ser um livro, é muito texto, muita coisa para pensar, analisar. É um enquerito policial e é apresentado todos os documentos policiais. Então, são muitos detalhes e tive que fazer um quebra-cabeça para que a coisa funcione e chegue no resultado que a gente quer. Eu fiz essa imersão toda, que nem tudo foi para o papel. Eu chamei as editoras na minha casa para jogarem e fiquei só analisando para ver se ia funcionar. E fomos só adaptando depois.
O seu novo jogo literário une narrativa de suspense com experiências interativas. Qual foi o maior desafio em transformar literatura em uma vivência imersiva?
Eu acho que são muitos suspeitos, você tem que criar uma narrativa onde todos podem ser suspeitos. Num livro, por exemplo, a gente cria 2 suspeitos, na verdade, a quantidade de informação que você tem que produzir para que o leitor deduza que cada pessoa possa ser culpada é muito menor como é num jogo, que tem que ser mais rápido e dinâmico. Então, eu acho que essa concentração de informação que todos documentam se cria um desafio. Você condensar o suficiente, mas também não pode deixar de dar informação. E foi uma experiência muito diferente para mim. Fazia de novo? Não sei. Mas, a ideia da Mapa Crime é criar outras narrativas no Rio de Janeiro. Eu escrevi no Parque Lage, inicialmente, por ser uma coisa tão icônica na cidade, com toda a mata, aquele castelo maravilhoso e tem um mistério só de olhar.
O que você priorizou no desenvolvimento?
Eu acho que foi essa conexão do motivo e de que forma o assassino sentenciou aquela pessoa, mas você tem que pensar dos seis suspeitos iniciais, eu acabei criando uma narrativa para cada um. E não considerei cinco. De certa forma, isso é uma conexão importante que precisa fazer sentido e tive que priorizar essa ligação de todos, se não a narrativa não saia. Então, a priorização dos detalhes, o que fulano disse que estava fazendo nesse local e de que forma ele induziu a polícia a estar nesse local. Outra coisa que priorizei foi a verossemelhança da polícia.
Quando me chamaram para criar esse jogo, eu tava imersa num projeto que está em desenvolvimento que se chama Voz de prisão, que é meu primeiro livro baseado em fatos reais de uma policial de Roraima que prendeu o assassino do pai dela 25 anos depois do ocorrido. Esse casa apareceu na mídia, no ano passado, e eu já entrei em contato com ela dizendo que queria escrever a história dela. Fui até lá, vi todo o caso, o inquérito policial desse crime. Eu estava com o material na minha mesa e pensei que precisava criar esse documento que seja como se fosse um verdadeiro. Agora, tudo o que fiz relacioando a empresas, relatórios, foi tudo inventado.
Quais referências você teve, seja de livros, filmes ou jogos, para criar essa experiência?Algum autor do gênero foi uma inspiração direta?
Na verdade, a referência desse jogo foi o relatória da polícia que eu tive contato. Mas, em termos de criatividade da narrativa, eu não sei qual foi. Criar histórias no Rio de Janeiro já é algo que faço, os meus livros são voltados a isso. Minha grande referência como autora é o Luiz Alfredo Garcia Roza que teve a vida dele literária toda pautada em histórias do Rio de Janeiro. Eu acho que falar sobre o Rio de Janeiro, ambientada em qualquer ambiente, seja no livro ou no jogo, além de ser uma honra, porque eu vivo aqui, é uma delícia falar sobre a cidade.
Estar ao lado de nomes como Cara Hunter e Raphael Montes é uma grande honra. Como você enxerga o diálogo entre o suspense brasileiro e o internacional?
O gênero do suspense ainda tem uma desigualdade, mas eu não tenho dúvida de que o Raphael Montes seja o grande nome nacional por ter um leque tão grande além da literatura. Eu acho que isso é muito importante para priorizar as narrativas de suspense nacionais. A gente tem vários nomes nacionais que não deixam a desejar. Eu sou fã de autores escandinavos, fiquei fã da Cara Hunter. Então, eu não discrimino nada, como autora e leitora. Mas, aqui no Brasil, com certeza, tem muita gente boa, mas eles precisam de valorização. Aqui, temos a ABERST (Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror) que é para valorizar esses autores.
G.T. Karber criou um fenômeno com Murdle, unindo lógica e narrativa. Você vê esse movimento de autores como Karber como uma inspiração para tornar a literatura mais lúdica e interativa?
Eu acho que ele tem o nicho dele, que é muito bacana e sou fã desse trabalho, é muito gostoso para quem gosta desse estilo. Ele traz muito essa carga muito forte de jogo de detetive, só que pode ser um tabuleiro, e é uma forma diferente de consumir a literatura policial. Mas, são nichos diferentes e eu não faria isso, tenho mais interesse em consumir.
Para finalizar, pode nos contar mais sobre sua carreira como autora?
Eu comecei a minha carreira sem a intenção de ser autora profissional. Eu morei muitos anos fora, morei no Casaquistão e lá eu escrevi como uma forma de me distrair, na época não tinha streaming, livros digitais. Aí pensei que essa era uma coisa para se fazer e eu sabia que seria um romance policial, porque eu fui introduzida como leitora pela ficção policial através dos livros do Sidney Sheldon. Eu comecei a escrever em 2011 e publiquei em 2014, de maneira independente, e só foi depois de 2018 que retornei de forma mais séria, porque aquilo não era minha vocação.
Desde lá, eu venho fazendo trabalhos como independente, publiquei 6 livros. E o “Evidência 7”, que foi o que apresentei para o Mapa Crime, os editores gostaram tanto do meu trabalho que resolveram republicar através do selo, no qual é voltado para ficção policial. Então, tem vários tipos de livros. Mas, todos os meus livros tem finais felizes, porque eu amo, e tem um romance. Então, são gostosos de ler, tem uma narrativa rápida, fluída.