Coyote vs. Acme: O filme que ganhou nova chance

Coyote vs. Acme transforma uma das maiores vítimas dos Looney Tunes em protagonista de uma batalha contra a própria empresa responsável por seus intermináveis fracassos. Com uma mistura de animação e live-action, o filme aposta na nostalgia, no humor físico e em uma divertida história de investigação e tribunal. Mas será que a aventura do Coyote consegue funcionar além da lembrança afetiva dos desenhos? Vamos falar mais sobre:
Qual é a história?
Coyote vs. Acme parte de uma ideia simples e extremamente divertida: e se o Coyote finalmente decidisse processar a empresa responsável por todas as armadilhas que dão errado em suas tentativas de capturar o Papa-Léguas?
Depois de anos comprando produtos da Acme Corporation, Wile E. Coyote percebe que talvez seus fracassos não sejam apenas culpa dele. As armadilhas explodem, caem ou simplesmente se voltam contra o próprio personagem. Cansado de perder, ele decide levar a empresa aos tribunais e conta com a ajuda do advogado Kevin Avery, interpretado por Will Forte.
Além disso, a trajetória do filme torna sua própria premissa ainda mais curiosa. Dirigido por Dave Green, Coyote vs. Acme quase foi engavetado pela Warner Bros. Discovery como parte de uma estratégia econômica, mas acabou encontrando um caminho para chegar ao público. A situação cria um paralelo inevitável com a história: um personagem pequeno enfrentando uma grande corporação enquanto o próprio filme precisou lutar para não ser deixado de lado por uma gigante do entretenimento. Essa coincidência adiciona uma camada interessante à produção, embora não seja necessária para que o filme funcione.

Looney Tunes no mundo real (mais uma vez):
A mistura entre animação e live-action é um dos maiores acertos da produção. Aliás, existe uma espécie de espírito de “Uma Cilada para Roger Rabbit”, especialmente na maneira como a história combina comédia, investigação e personagens animados inseridos em um universo de pessoas reais. Porém, o contraste é naturalmente engraçado. De um lado, temos personagens que seguem a lógica absurda dos desenhos animados, capazes de sobreviver a explosões, quedas e situações completamente impossíveis. Do outro, existem advogados, tribunais, contratos e as consequências que essas situações teriam no mundo real.
O humor nasce justamente desse choque de universos. O filme não tenta transformar os Looney Tunes em personagens realistas. Pelo contrário. Na verdade, permite que eles continuem sendo exagerados enquanto os humanos precisam reagir àquela realidade absurda. Essa escolha também ajuda a produção a escapar de ser apenas uma coleção de referências nostálgicas. A nostalgia está presente, mas não é o único combustível.
Um elenco que entra na brincadeira:
Will Forte assume o protagonismo humano como Kevin Avery, advogado do Coyote, e consegue entregar alguns dos momentos mais divertidos do filme justamente por causa de sua interação com os personagens animados. A sua atuação entende a proposta e abraça o exagero necessário. Forte não tenta competir com os desenhos, mas funciona como uma espécie de ponte entre o absurdo dos Looney Tunes e a lógica do mundo real.
John Cena, como Buddy Crane, advogado da Acme Corporation e principal antagonista da história, também aproveita muito bem sua experiência com comédia. O personagem é arrogante, exagerado e construído para ser uma presença quase caricatural, exatamente o tipo de papel que combina com a proposta do longa. Já Lana Condor, como Paige Avery, consegue conquistar seu espaço mesmo sem carregar o protagonismo. A atriz funciona bem dentro do grupo e ajuda a equilibrar a dinâmica entre os personagens humanos e animados.

Tentar, falhar e continuar:
Por trás das explosões, perseguições e piadas físicas, Coyote vs. Acme também encontra espaço para uma reflexão bastante simples sobre fracasso. O Coyote é, provavelmente, um dos personagens mais fracassados da história da animação. Ele tenta, erra, se machuca, perde e, ainda assim, volta a tentar. É exatamente essa persistência que faz parte de sua personalidade.
Ao transformar o personagem em alguém disposto a enfrentar judicialmente a empresa responsável por suas derrotas, o filme dá uma nova interpretação para essa característica. Pela primeira vez, o Coyote não está simplesmente preparando a próxima armadilha. Ele está tentando mudar as regras do jogo. Acredito que tem uma ironia interessante nisso, já que um filme que quase foi impedido de chegar ao público conta justamente a história de um personagem que nunca desiste, mesmo quando tudo parece dar errado. Não é uma mensagem especialmente profunda, mas combina com o espírito do personagem e acaba funcionando como uma leitura curiosamente apropriada para a trajetória do próprio filme.
Coyote vs. Acme vale super a pena!
De modo geral, Coyote vs. Acme funciona principalmente como uma comédia nostálgica e divertida. A mistura de animação e live-action, o bom entrosamento do elenco e a presença dos personagens clássicos fazem da produção uma experiência leve. Não é necessário conhecer profundamente os Looney Tunes para aproveitar a história, mas quem cresceu acompanhando o Coyote e o Papa-Léguas certamente encontrará um charme extra. No fim, depois de décadas tentando capturar o Papa-Léguas, o Coyote finalmente encontra uma nova estratégia: se não consegue vencer a Acme com suas próprias armadilhas, talvez consiga vencê-la no tribunal.




