Valor Sentimental: O rival de O Agente Secreto?

Sendo um dos favoritos na temporada de premiações 2026, Valor Sentimental é um filme sobre reconciliação através da arte. Mas não no sentido reconfortante que essa ideia costuma prometer. Na verdade, vemos um pai e suas filhas em uma situação complexa e marcada por traumas. Por isso, vamos falar sobre Valor Sentimental:
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Entre e reconciliação e drama familiar:
Valor Sentimental é um filme sobre reconciliação através da arte, mas não no sentido reconfortante que essa ideia costuma prometer. Joachim Trier constrói um drama familiar em que o constrangimento vira linguagem, a ternura aparece quase sempre como acidente e a arte surge não como salvação, mas como a desculpa mais sofisticada para continuar fugindo. Talvez, encontrar alguma forma tardia e imperfeita de redenção nessa válvula de escape.
No centro está Gustav Borg (Stellan Skarsgård), um cineasta em declínio que retorna à vida das filhas tarde demais, após a morte da ex-mulher. Ele volta não com pedidos claros de desculpa ou tentativas diretas de reparação, mas com o único vocabulário que domina: cinema. Decide transformar a antiga casa da família, um organismo saturado de memória, nostalgia e ruído emocional, no set de seu novo filme. Quer filmar ali, e quer Nora (Renate Reinsve) como protagonista. Quando ela recusa, Gustav reage como sempre reagiu: substitui pessoas por funções, afeto por logística, e contrata uma estrela internacional, Rachel Kemp (Elle Fanning), porque o mundo (e o financiamento) respeita mais “um nome” do que um gesto de responsabilidade afetiva.
Ninguém é perfeito e todos lidam com traumas:
O gesto é cruel, mas o filme é mais cruel ainda ao se recusar a simplificá-lo. Trier não escreve Gustav como vilão nem como artista incompreendido. Ele é algo mais incômodo: um narcisista funcional, carismático o bastante para transformar agressões em “franqueza” e inteligente o suficiente para sempre parecer ligeiramente acima da crítica que merece. A cada reencontro, o roteiro expõe como a ausência dele virou método. Gustav some, retorna, faz uma cena, pede compreensão e, em seguida, tenta dirigir a vida alheia como dirige um elenco.
Renate Reinsve carrega a parte mais elétrica do longa. Nora é uma atriz competente e reconhecida, mas minada por um pânico de palco que não funciona apenas como “traço psicológico”: é sintoma. É o corpo denunciando aquilo que a fala tenta organizar e falha. Reinsve constrói a personagem num equilíbrio preciso entre cinismo e fragilidade, com uma musicalidade cruel, em que o riso nunca é celebração, apenas defesa. Trier estrutura os encontros familiares em blocos quase teatrais, pequenos atos em que Nora, Agnes e Gustav se revezam entre acusar, relativizar, tolerar, explodir e recuar para o lugar mais confortável do mundo emocional contemporâneo: o subtexto.
Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) funciona como contrapeso moral do filme, mas Trier é sagaz demais para transformá-la em “a irmã boa”. Sua serenidade não nasce da virtude, e sim da renúncia e da fadiga. Além disso, a entrada de Elle Fanning como Rachel Kemp é uma escolha brilhante justamente por sua estranheza dentro daquele ecossistema. Rachel funciona como espelho duplo: é, ao mesmo tempo, a profissional que chega para fazer um trabalho e a prova viva de que Gustav tem mais empatia por desconhecidos do que pelas próprias filhas.

Mas, é perfeito?
Formalmente,o longa se sustenta numa elegância que parece modesta até que se perceba o rigor por trás dela. A fotografia de Kasper Tuxen tem um senso tátil do espaço: madeira, corredores, luz fria, interiores que respiram como arquivos vivos de conversas antigas. A casa não é cenário, é memória condensada. Trier sabe quando torná-la labirinto, quando deixá-la acolhedora, quando fazê-la hostil. A mise-en-scène transforma o enquadramento em disputa: Gustav frequentemente domina a geometria do plano, enquanto as filhas se protegem em laterais, portas e cantos, como se o próprio quadro já denunciasse a assimetria de poder.
A montagem aposta menos no impacto do corte do que no desconforto da permanência. As pausas se estendem, o silêncio vira resposta, o riso morre antes de encontrar abrigo. O filme entende que, dentro da família, a violência raramente é o grito — é a frase educada que vem depois, ou aquilo que jamais é dito.
O principal risco da produção está na própria ambição. Trier tenta abarcar muitas camadas — crise artística, luto, trauma geracional, metalinguagem do cinema, tensões de financiamento e prestígio, ressentimento entre irmãs, pânico de performance, paternidade falha — e, em certos momentos, o filme parece tão consciente da própria inteligência que evita a sujeira. Prefere a precisão do diagnóstico ao descontrole da ferida aberta. Algumas discussões ficam “bem escritas”, mas não necessariamente devastadoras.
Vale a pena assistir Valor Sentimental?
No fim, olonga não oferece catarse limpa nem redenção plena. O cinema aparece como moeda de troca, como gesto de controle, como refúgio e como tentativa desesperada de permanecer relevante. Trier parece dizer que a arte pode, sim, criar pontes, mas também pode servir para adiar encontros reais, para polir culpas e para transformar falhas éticas em estética. É um filme profundamente desconfortável porque reconhece algo que preferimos negar: às vezes, o amor não falta por ausência de sentimento, mas por excesso de mediação. E talvez seja por isso que a reconciliação aqui, quando acontece, nunca soa como vitória, apenas como um intervalo possível antes do próximo corte.




