Supergirl: acerto ou erro da nova DC?

Supergirl chega como uma das apostas mais ousadas do novo universo cinematográfico da DC, ao escolher um caminho menos heroico tradicional e mais centrado no trauma, na identidade fragmentada e na dor emocional da sua protagonista. Em vez de repetir a trajetória luminosa de Superman, o filme mergulha em uma Kara Zor-El marcada por perdas reais, deslocamento constante e uma dificuldade profunda de pertencimento. O resultado é uma obra que tenta equilibrar espetáculo e introspecção, apostando em uma leitura mais adulta da personagem e explorando temas como luto, raiva feminina e autodestruição emocional. Por isso, vamos falar sobre Supergirl:
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Supergirl não é igual ao Superman:
O filme Supergirl aposta em um caminho que busca se distanciar deliberadamente da sombra de Superman, ao mesmo tempo em que recupera a essência mais emocional e caótica da personagem nos quadrinhos. Desde os primeiros momentos, o que se destaca é uma Kara mais quebrada por dentro, menos idealizada e muito mais atravessada por traumas não resolvidos. Ela não é apenas uma heroína em formação, mas alguém que carrega um peso psicológico evidente, que tenta silenciar — muitas vezes — através de excessos, como o uso de bebidas e a constante fuga entre planetas. Essa errância espacial não é só estética: é sintoma de uma personagem que não encontra repouso em lugar nenhum.
Ao contrário de Clark, Kara realmente viveu Krypton. Isso muda tudo. Ela não herda apenas uma memória fragmentada de um mundo perdido, mas um passado vivido, com vínculos, perdas concretas e divergências internas sobre o próprio destino de seu povo. Essa diferença é central para o filme: enquanto Superman representa a adaptação e o pertencimento, Kara representa a ruptura. No início, ela não se sente em casa em nenhum lugar, nem na Terra, nem no espaço. A única exceção emocional é sua conexão com Krypto, que funciona como um raro ponto de estabilidade afetiva em meio ao caos.
A entrada de Ruthy muda essa dinâmica de forma significativa. Ruthy surge como um espelho distorcido de Kara: uma jovem marcada pela perda da família e consumida pelo desejo de vingança. É nesse encontro que o filme encontra sua camada mais interessante. Kara, ao se ver refletida na dor da outra, é forçada a confrontar o próprio mecanismo de fuga emocional. Em vez de apenas “salvar” Ruthy, ela passa a se questionar e, aos poucos, aprende a lidar com suas próprias feridas não resolvidas.
Craig Gillespie com a obra:
A direção de Craig Gillespie segue uma proposta clara: construir uma heroína que não seja uma repetição do Superman, mas que ainda ocupe seu próprio território dentro desse universo. Há uma identidade visual e narrativa bem definida, com forte atenção à estética e à construção emocional das cenas. Tecnicamente, o filme se mantém sólido, respeitando sua proposta e entregando momentos bem executados dentro do gênero.
Um dos aspectos mais interessantes é como o roteiro trabalha uma ideia de “female rage” tanto em Kara quanto em Ruthy. Não se trata de raiva explosiva gratuita, mas de uma energia acumulada por perda, trauma e silêncio. Essa raiva feminina aparece como força motriz narrativa, mas também como algo que precisa ser compreendido e não apenas descarregado. O filme acerta ao não tratar isso de forma simplista, mesmo que em alguns momentos falte aprofundamento maior.

Milly Alcock é a Supergirl:
A performance de Milly Alcock como Kara é um dos pontos altos da produção. Ela entrega uma personagem cheia de camadas, conseguindo transitar entre vulnerabilidade e dureza com naturalidade. Sua interpretação dá peso às contradições internas de Kara, especialmente na forma como ela lida com emoções reprimidas e com a dificuldade de confiar em qualquer tipo de estabilidade emocional. Há uma identificação clara com figuras femininas que carregam muito dentro de si e aprendem a sobreviver apesar disso. Se você cresceu assistindo Liga da Justiça: Sem limites (assim como eu), você vai reparar que tem uma essência da personagem ali.
Por outro lado, o filme não é isento de problemas. O maior deles talvez esteja no ritmo, que em diversos momentos poderia ser mais dinâmico e melhor equilibrado. Além disso, a presença de Jason Momoa como Lobo soa mais como um desvio tonal do que uma adição realmente necessária à narrativa. Embora funcione em termos de humor e carisma (muito alinhado ao estilo do ator) o personagem acaba sendo pouco relevante para o desenvolvimento da história, servindo mais como alívio cômico e solução pontual do que como peça estrutural do enredo.
Vale a pena assistir Supergirl?
No geral, Supergirl é um filme que acerta mais quando aposta na introspecção e no trauma do que quando tenta expandir seu escopo com elementos externos. É uma obra que entende sua protagonista como alguém em constante conflito interno, e que encontra força justamente na fragilidade. Ainda que não seja perfeito em ritmo ou foco narrativo, ele se sustenta por sua proposta emocional e pela forma como reposiciona Kara dentro desse novo imaginário cinematográfico.




