Só Por Uma Noite: química e diversão salvam uma ideia absurda?

Imagina descobrir que, a partir de agora, se você for solteiro, só pode fazer sexo durante uma única noite do ano? É basicamente dessa ideia completamente absurda que parte Só Por Uma Noite, nova comédia romântica de Will Gluck, diretor de Todos Menos Você e A Mentira. E eu confesso que, quando descobri a premissa, fiquei muito curiosa para entender o que exatamente eles fariam com isso. No fim, temos um filme divertido, com um casal que funciona muito bem e situações que ficam cada vez mais caóticas conforme a noite avança. Só acho que, considerando o universo que o próprio filme criou, dava para ter ido um pouquinho além.
Conheça a história de Só Por Uma Noite
Só Por Uma Noite se passa em uma Nova York praticamente igual à que conhecemos, com uma diferença bem importante: pessoas solteiras são proibidas de fazer sexo durante o ano inteiro. A única exceção acontece em uma noite específica, quando a proibição é suspensa e os solteiros finalmente podem aproveitar algumas horas de liberdade.
É justamente nessa noite que Allie (Monica Barbaro) e Owen (Callum Turner) se conhecem. Ela é uma romântica que ainda acredita no amor e espera encontrar alguém com quem realmente tenha uma conexão, enquanto ele está enfrentando uma desilusão amorosa depois de ver seu relacionamento tomar um rumo completamente diferente daquele que esperava.
Quando os dois se conhecem, existe uma atração imediata, mas cada um acaba seguindo o seu caminho. O problema (ou talvez a sorte deles – e a nossa!) é que, por mais que tentem aproveitar a noite e ir atrás de outras pessoas, Allie e Owen continuam se esbarrando nas situações mais inusitadas possíveis. Seja na busca pela última camisinha ou no meio de alguma nova confusão, parece que Nova York simplesmente insiste em colocar os dois no mesmo lugar.

Um casal que realmente faz você torcer por ele
Para mim, uma das coisas mais importantes em uma comédia romântica é gostar do casal. A gente sabe muito bem qual é a proposta desse tipo de filme e normalmente já consegue imaginar para onde a história está caminhando, então o roteiro precisa dar algum motivo para querer acompanhar aquelas duas pessoas. Se eu não gosto de nenhum dos protagonistas e tanto faz se eles vão ficar juntos ou não, já temos um grande problema.
Felizmente, não é o que acontece aqui.
Gostei bastante da Allie principalmente porque o filme consegue mostrar que ela é uma pessoa romântica sem transformar isso em uma questão moral. Ela acredita no amor, quer encontrar alguém e claramente valoriza muito a conexão que pode construir com outra pessoa, mas isso não significa que ela seja contra sexo casual ou que exista algum problema em conhecer alguém naquela noite e querer ficar com essa pessoa. Uma coisa não anula a outra e achei legal o filme conseguir construir a personagem dessa maneira.
Owen também está procurando algo parecido, mesmo que os dois cheguem àquela noite em momentos diferentes. Ele acabou de passar por uma desilusão amorosa e fica bem claro que estava realmente investido naquele relacionamento. Então temos duas pessoas que podem até estar dispostas a aproveitar aquela noite como todo mundo, mas que, no fundo, querem encontrar alguém que continue por perto quando ela acabar.
E acho que é justamente por isso que os dois funcionam tão bem juntos. Monica Barbaro e Callum Turner têm uma química bem legal e já no primeiro encontro existe aquele clima que faz você perceber exatamente o que o filme pretende fazer com eles. Claro que nada pode ser tão simples, porque aí não teríamos uma história, e logo começam os problemas e desencontros que vão manter os dois correndo de um lado para o outro.
Mas eu gostei dos dois individualmente também. Não senti que um deles precisava carregar o outro ou que só estava torcendo pelo casal porque uma das partes era interessante. Eles são divertidos, têm personalidades que se completam e são personagens que você gosta de acompanhar, o que ajuda muito quando praticamente todo o filme depende dessa dinâmica.
Talvez essa proibição pudesse render um pouco mais
Agora, precisamos falar sobre essa proibição porque é impossível não fazer uma comparação um pouco absurda: Só Por Uma Noite é quase uma versão comédia romântica de Uma Noite de Crime. Só que, em vez de o governo liberar todos os crimes durante uma noite do ano, aqui ele libera o sexo entre pessoas solteiras. E quanto mais eu pensava nisso, mais percebia que o filme tinha nas mãos uma ideia que poderia render uma crítica social bem interessante, mas ele simplesmente não parece muito interessado em seguir por esse caminho.
Em algum momento é explicado que não foram as pessoas que decidiram proibir o sexo entre solteiros. A medida veio do Congresso como uma forma de diminuir casos de ISTs, gravidez na adolescência e outros problemas; e todo mundo possui uma espécie de chip que permite esse controle mas, fora isso, a vida continua normalmente.
E é aí que eu acho curioso: não estamos falando de uma sociedade futurista completamente diferente ou de uma grande distopia. É literalmente Nova York como conhecemos, só que o governo decidiu que pessoas solteiras não podem fazer sexo! Por um lado, eu entendo perfeitamente que talvez o filme simplesmente não esteja interessado em discutir isso, é uma comédia romântica e essa proibição funciona como a desculpa necessária para existir aquela noite maluca em que todo mundo está desesperado para encontrar alguém. Você aceita a regra e segue a vida.
Só que é difícil não pensar na quantidade de coisa que dava para explorar a partir daí. Existe toda uma discussão sobre conservadorismo, controle sobre o corpo das pessoas e até sobre a eficiência de simplesmente proibir um comportamento para tentar resolver outros problemas. E o próprio filme mostra um resultado bastante engraçado dessa repressão, porque chega a noite em que tudo é permitido e parece que as pessoas simplesmente viram animais. É gente se agarrando em todo canto, perdendo completamente o pudor e tratando aquelas poucas horas como se o mundo fosse acabar. O filme brinca bastante com isso e rende situações engraçadas, mas não parece interessado em transformar a ideia em algo maior. E tudo bem. Não acho que isso estrague a comédia romântica ou que o filme tivesse obrigação de fazer uma grande crítica social. Só fiquei com a sensação de que existia uma ideia muito boa ali que poderia ter sido um pouquinho mais aproveitada.
Outra coisa que gostei bastante foi o ritmo. Como a história praticamente inteira acontece durante uma única noite, seria muito fácil os desencontros começarem a ficar repetitivos, principalmente porque boa parte da trama depende justamente de Allie e Owen se aproximarem, alguma coisa acontecer e tudo virar uma bagunça novamente.
Só que o filme consegue ser bem fluido e ainda encontra uma maneira divertida de mostrar quanto tempo já passou. Vira e mexe aparece algum contador em Nova York indicando quanto falta para aquela noite terminar. Em determinado momento eles entram em um táxi e até o letreiro do carro mostra a contagem regressiva. São detalhes simples, mas funcionam muito bem porque você também começa a sentir que o tempo está acabando. E quanto mais a noite avança, mais absurdas ficam algumas situações. Tem até Allie tentando recuperar uma camisinha que foi parar em um bueiro com Owen ajudando na missão, porque aparentemente esse é um problema perfeitamente normal de se ter naquela noite.
Só deixo uma recomendação: talvez não seja a melhor escolha para aquela sessão de cinema em família. A classificação indicativa é de 16 anos e, caso a premissa ainda não tenha deixado suficientemente claro, sexo e piadas sobre sexo aparecem bastante!
Monica Barbaro, Callum Turner e um elenco que funciona

O elenco também ajuda bastante a fazer Só Por Uma Noite funcionar. Monica Barbaro e Callum Turner são bons protagonistas, mas os coadjuvantes também conseguem deixar essa noite ainda mais divertida.
Entre eles está Molly Ringwald como a mãe de Owen. Ela não aparece tanto, mas é uma personagem muito legal e a relação entre os dois rende momentos engraçados. E, bom, é a Molly Ringwald em uma comédia romântica, então eu obviamente gostaria de ter visto um pouquinho mais dela.
Também gostei bastante de o filme colocar música no meio da história. Allie trabalha como cantora, mas não pense que estamos falando de uma grande estrela vivendo de apresentações maravilhosas. Ela canta músicas para comerciais e o filme já começa com a personagem fazendo uma música de prevenção à psoríase, o que é uma maneira bastante específica de apresentar uma protagonista.
Pode ser um detalhe pequeno, mas eu adoro filmes que conseguem colocar música no meio da história, então funcionou comigo.
Só Por Uma Noite vale a pena assistir?
No geral, eu gostei de Só Por Uma Noite. É aquele tipo de comédia romântica que sabe ser divertida, tem um casal que você gosta de acompanhar e consegue transformar uma única noite em uma sequência de situações tão absurdas que, em alguns momentos, você só fica pensando em como aquelas duas pessoas ainda conseguiram se meter em mais uma confusão.
Acho que o filme poderia ter aproveitado melhor a própria premissa, principalmente porque existe muita coisa interessante por trás da ideia de um governo que simplesmente decide controlar a vida sexual das pessoas. É uma discussão que Só Por Uma Noite escolhe não aprofundar e que, para mim, poderia deixar a história ainda mais interessante. Ainda assim, isso não chega a atrapalhar o romance. Quando o filme deixa essa questão de lado e foca em Allie e Owen, ele funciona justamente porque os dois são personagens que você gosta de acompanhar e que parecem estar procurando a mesma coisa: alguém que não fique por perto apenas durante aquela noite.
Não espere uma história que vai revolucionar o gênero ou uma grande crítica social escondida por trás do romance. É um filme leve, engraçado, com bons atores e uma química legal entre eles. Eu me diverti assistindo e não senti que perdi meu tempo, mesmo que também não tenha terminado pensando que tinha acabado de encontrar uma nova comédia romântica favorita.
Então, se você gosta do gênero e está procurando alguma coisa divertida para assistir, acho que vale a sessão. Só reforço que talvez não seja a melhor escolha para assistir com a família inteira, porque se tem uma coisa que Só Por Uma Noite faz questão de lembrar do começo ao fim é qual é o grande evento daquela noite. E sim, eles falam bastantesobre isso.





