Resenha: Flores que Crescem nas Sombras, de Caroline Carnevalle

Disponível no Kindle Unlimited, no livro Flores que Crescem nas Sombras, de Caroline Carnevalle, a fantasia não serve como refúgio, mas como confronto. Com fortes ecos de folk horror e uma inspiração no Studio Ghibli, o livro constrói um universo belo e cruel, onde o perigo se infiltra em cada detalhe. Mas, vamos falar com calma e detalhes sobre Flores que Crescem nas Sombras:
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Uma mistura única de elementos:
Em Flores que Crescem nas Sombras, Caroline Carnevalle presenteia o leitor com uma fantasia audaciosa, de atmosfera densa e envolvente, que dialoga com o folk horror e carrega forte inspiração no Studio Ghibli. Mas, sem jamais se prender à suavidade. Aqui, a fantasia floresce em tons mais adultos, mortais e impiedosos. O resultado é um mundo assustador, viciante e profundamente instigante, onde nada é totalmente confiável, mas tudo é irresistivelmente cativante.
A criatividade da autora desabrocha de forma assustadoramente bela. A narrativa mergulha o leitor em um constante estado de tensão, como se cada passo fosse dado no escuro, com a plena consciência de que o perigo está à espreita. Há uma sensação permanente de iminência: algo vai acontecer e você não sabe se está preparado. Em diversos momentos, a leitura exige pausas para respirar, organizar os pensamentos e acalmar a mente inquieta. Ainda assim, é impossível se afastar por muito tempo. Aliás, a escrita é envolvente e precisa, conduzindo o leitor com cuidado, plantando pequenas sementes narrativas que florescem mais adiante, recompensando até mesmo as pistas mais sutis.
Personagens incrivelmente únicos:
Outro grande acerto da obra está na construção dos personagens. Caroline Carnevalle demonstra enorme coragem ao criar figuras tão profundas e humanas, capazes de provocar reflexão e desconforto. A narrativa rompe com a visão simplista que separa bem e mal em extremos opostos, apresentando personagens complexos, genuínos e fiéis às próprias crenças e aos seus destinos. Até mesmo aquele personagem mais detestável acaba despertando compreensão, pois suas motivações são apresentadas com veracidade e sensibilidade.
A leitura se torna ainda mais empolgante por essa constante oscilação emocional: personagens verdadeiramente dúbios, que se sustentam muito além de passados trágicos. O leitor hesita, teme, questiona se eles farão a escolha certa ou se cometerão atos absurdos. Até que a narrativa dá uma volta inesperada e revela que tudo pode ser ainda mais complexo. Essa instabilidade é arrebatadora e mantém a história pulsando.
Mira e Eulora são a alma da narrativa:
A dupla de protagonistas sustenta com maestria o peso da grandiosidade da narrativa. Mira e Eulora representam forças distintas, mas complementares, traçando jornadas de amadurecimento marcadas por decisões difíceis, arrependimentos e dúvidas constantes sobre o que é, de fato, o correto. A amizade sincera e fraternal entre elas é um dos pontos mais emocionantes do livro. Acompanhar seu crescimento, suas dores e conquistas, até o momento em que finalmente se reconhecem e entendem quem estão destinadas a ser, é uma experiência profundamente tocante.
As ações de certos personagens colocam à prova o limite do leitor: provocam raiva, frustração e revolta, sentimentos necessários, pois reforçam sua humanidade. Erram e acertam repetidamente, assim como a própria obra, que se ancora na ideia de navegar entre luz e sombra. Na verdade, podemos analisar que Flores que Crescem nas Sombras fala sobre ciclos, de feridas que se abrem, são remendadas, voltam a sangrar e, ainda assim, seguem em frente. Mesmo nos cenários mais sombrios, há sempre a expectativa pelos dias bons.
Vale a pena ler Flores que Crescem nas Sombras?
Ao concluir Flores que Crescem nas Sombras, fica a sensação de ter atravessado algo maior do que uma simples história de fantasia. O livro deixa marcas, provoca reflexões e permanece ecoando muito depois da última página, como uma ferida que cicatriza lentamente. Caroline Carnevalle constrói uma narrativa onde luz e trevas coexistem em equilíbrio instável, lembrando ao leitor que o bem não é absoluto e o mal não é eterno. Entre crueldade e esperança, perdas e crescimento, a obra revela que flores também nascem em terrenos sombrios e que, mesmo em meio ao caos, ainda há espaço para transformação. É uma leitura intensa, arrebatadora e necessária, que confirma o talento da autora e reforça o poder da fantasia como espelho da condição humana.




