Resenha: Eu, Medusa, de Ayana Gray

Lançado pela Intrínseca, Eu, Medusa, de Ayana Gray, propõe uma releitura intensa e emocionalmente carregada de um dos mitos mais conhecidos da tradição grega. Ao revisitar a figura de Medusa, a autora desloca o foco da imagem consagrada da “monstra” de cabelos serpenteantes e olhar fatal para a construção de sua história anterior à transformação que a consagrou no imaginário coletivo. Por isso, vamos falar de Eu, Medusa:
Veja também-Eu, Medusa: A releitura de Ayana Gray lançado pela Intrínseca
Qual é a história?
Na trama, Medusa — chamada pelos mais próximos de Meddy — cresce sentindo-se deslocada dentro da própria família. Enquanto os pais e as irmãs pertencem ao universo divino dos deuses, ela é apenas mortal. Quando recebe a oportunidade de deixar a ilha onde cresceu para tentar se tornar sacerdotisa de Atena, Meddy finalmente acredita que pode encontrar o próprio lugar no mundo.
Ao exercer a função de acólita, ela mergulha nas rígidas provas do templo determinada a mostrar seu valor e conquistar o prestígio reservado às escolhidas de Atena. Aos poucos, a jovem passa a se destacar entre as demais iniciadas, experimentando pela primeira vez a sensação de pertencimento e poder — até que sua aproximação com os deuses do Olimpo altera seu destino para sempre.
Após sofrer uma violência brutal e ser injustamente punida por um crime que não cometeu, Medusa é amaldiçoada: seus cabelos se transformam em serpentes, e ela passa a carregar o título de vilã. Em vez de aceitar o que foi imposto sobre si, porém, Meddy decide reescrever a própria história — não como vítima, mas como justiceira.
Uma releitura marcante e única:
Eu, Medusa é, na minha opinião, uma das releituras mitológicas mais contundentes dos últimos anos justamente por não tratar o mito como algo intocável, mas como um campo de disputa sobre narrativa, poder e memória. A obra parte de uma questão central: quem é chamado de “monstro” e por quê.
Frequentemente retratada como um “monstro” ou demonizada por suas ações, Medusa aparece na tradição grega de formas muito diferentes, seja como ameaça a ser eliminada, ou como figura cuja história parece sempre começar depois da violência já ter sido cometida. O que Ayana Gray faz, com bastante intenção crítica, é recuar esse ponto de partida. Em vez de aceitar a Medusa já monstruosa como dado, o romance volta à sua juventude e a reimagina como uma garota mortal, com vínculos familiares, desejos e uma vida interrompida antes que qualquer rótulo lhe fosse imposto.

Aqui, vemos a trajetória de Medusa:
Nesse sentido, o livro me parece especialmente eficaz ao reconstruir essa transformação não como destino, mas como processo. A Medusa não “vira monstro” por natureza. Na verdade, ela é empurrada para essa condição por acontecimentos que envolvem manipulação, abuso de poder e violência. Aliás, elementos que, embora narrados em chave mitológica, dialogam de forma direta com estruturas muito reconhecíveis da realidade contemporânea.
É justamente aqui que o romance se torna mais incômodo e, ao mesmo tempo, mais relevante. A leitura sugere como é comum que vítimas de violência sejam posteriormente redefinidas a partir do trauma que sofreram, como se esse trauma apagasse tudo o que vieram antes. Essa inversão — em que a vítima passa a ser vista como ameaça — é um dos pontos mais fortes da obra, porque não é tratada como exceção, mas como padrão narrativo recorrente, tanto nos mitos quanto, de forma mais ampla, nas sociedades.
Os Deuses colocados como figuras questionáveis:
Também me chama atenção como o livro expõe, ainda que de maneira indireta, a assimetria moral presente na mitologia: figuras divinas frequentemente associadas a abuso, coerção e violência são mantidas em posições de poder e reverência, enquanto as consequências recaem sobre corpos mortais. Sem precisar transformar isso em panfleto, Gray sugere uma crítica à forma como autoridade e violência podem coexistir de maneira naturalizada dentro de narrativas “fundadoras”.
Ao mesmo tempo, acredito que a força do romance está menos na reinterpretação do mito em si e mais no desconforto que ele provoca. A trajetória de Medusa é narrada de um modo que torna difícil manter qualquer leitura simplista. Há uma tensão constante entre empatia e indignação. E é justamente essa oscilação que sustenta o impacto da obra. Se há algo que pode dividir opiniões, talvez seja o caráter bastante direcionado da releitura. O livro assume uma posição clara: Medusa não é o problema da história, mas o resultado de uma cadeia de violências. Para alguns, isso pode reduzir a ambiguidade típica dos mitos clássicos; para outros, é exatamente essa clareza moral e emocional que dá potência à narrativa.
Vale a pena ler Eu, Medusa?
De todo modo, Eu, Medusa se destaca como uma releitura que não tenta “corrigir” o mito, mas sim questionar por que certas versões se tornaram hegemônicas. Na minha opinião, o maior mérito do livro é devolver humanidade a uma figura que, por séculos, foi usada mais como símbolo de horror do que como sujeito de uma história. E, ao fazer isso, ele reforça uma ideia simples, mas difícil de ignorar: muitas vezes, o que chamamos de monstros são pessoas cuja história foi contada a partir da violência que sofreram, e não apesar dela.




