Perrengue Fashion: Quando a comédia critica a era digital atual

Além de uma diversão garantida, Perrengue Fashion veio para trazer uma reflexão atual sobre maternidade, a era digital atual e o consumismo extremo. Inclusive, o longa com Ingrid Guimarães e Rafa Chalub em sintonia e uma trama que mistura moda, Amazônia e boas risadas. Por isso, vamos falar mais sobre Perrengue Fashion:
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O enredo como espelho social:
A protagonista Paula Pratta é quase uma caricatura da figura da influenciadora digital: obcecada pela própria imagem, desconectada das causas reais, refém de contratos e likes. Ao ir atrás do filho Cadu na ecovila amazônica, ela não só busca reencontrar a família, mas também reafirmar seu próprio status. Essa viagem, claro, serve como motor narrativo para a transformação da personagem.
O contraste entre São Paulo e Amazônia é usado como dispositivo clássico de comédia: o choque cultural, o estranhamento diante da culinária, da vida comunitária e da ausência de luxo. Mas por trás da caricatura, o filme levanta perguntas incômodas: até que ponto o estilo de vida urbano é sustentável? E como diferentes gerações percebem a responsabilidade de agir frente à crise ambiental?
O espetáculo para as redes sociais:

Com toda a certeza, o que me deixou mais feliz com esse filme foram as críticas apresentadas no roteiro que vão desde a maternidade e sobre a era das redes sociais. A protagonista trabalha como influencer de moda e está sempre procurando formas de crescer na área, até abrindo exposição execessiva para aqueles que não desejam ser vistos online. Tanto que isso é uma das características que atrapalha o relacionamento com filho, afinal, ele quer seguir um caminho diferente da mãe. Além disso, eu sai da sala de cinema pensando na maternidade atual, principalmente daquelas que transformam a vida do filho em um grande espetáculo virtual. O que, infelizmente, acontece diariamente.
Com toda a certeza, toda essa junção de críticas vem com a Ingrid Guimarães, além de atriz, que participa do roteiro, o que parece trazer uma autenticidade ao tom de humor, aquele que se apoia em situações embaraçosas, no átimo entre a vaidade e a vulnerabilidade. O humor desponta principalmente pelo contraste entre mundos opostos: a estética impecável da moda e o rústico da floresta. Esse embate cria momentos de graça, mas também de incômodo, o que é saudável num filme que quer provocar. Aliás, quero acrescentar a obra traz um pouco de preservação ambiental em meio aos caos do consumo excessivo de produtos e roupas.
Mas, calma que não é perfeito:
Ainda assim, nem tudo funciona com a mesma intensidade. Se por um lado a comédia entretém e gera identificação, por outro o filme corre o risco de tratar suas questões mais sérias de maneira superficial. O ambientalismo, por exemplo, muitas vezes serve apenas como pano de fundo, sem espaço para discussões mais profundas sobre preservação ou identidade regional.
Em alguns momentos, a narrativa escorrega em estereótipos, especialmente ao representar costumes amazônidas e paraenses, o que já gerou polêmica entre espectadores locais. Essas escolhas revelam uma fragilidade comum ao cinema nacional quando tenta olhar para o Norte do país. Ou seja, usar a região como cenário exótico, sem mergulhar de fato em suas singularidades.
Vale a pena assistir Perrengue Fashion?
De fato, Perrengue Fashion traz o equilíbrio entre comédia e críticas atuais, de forma acessível ao grande público. Sem contar que a mistura de críticas que se conversam são compatíveis com a atualidade e com o que vemos nas telas. Talvez não seja um filme perfeito, mas é um convite válido para rir das nossas próprias incoerências e pensar, entre um perrengue e outro, sobre o que realmente importa.




