O Morro dos Ventos Uivantes: Polêmico e tenso?

Mesmo com polêmicas sobre a produção, O Morro dos Ventos Uivantes traz a obssessão, o ódio e um amor complexo para a narrativa. Na verdade, Emerald Fennell explora, de uma outra forma, uma das obras mais chamativas da histórias e traz um enredo profundo com Margot Robbie e Jacob Elordi. Por isso, vamos falar sobre O Morro dos Ventos Uivantes:
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Obssessão é a palavra-chave:
O Morro dos Ventos Uivantes é uma adaptação que entende que preservar a essência de uma obra não significa fidelidade literal. E a diretora Emerald Fennell entende isso e usa ao seu favor. Mesmo com mudanças estruturais e a ausência de alguns personagens secundários, o filme mantém intacto o núcleo emocional e temático do romance original: a obsessão como força motriz, destrutiva e inevitável. A narrativa não tenta suavizar esse impulso, muito pelo contrário, o amplifica e o traduz para uma linguagem contemporânea, mais crua e provocativa.
A obsessão aqui é explorada em todas as suas camadas, emocional, sexual, psicológica e social. Mas, é a dimensão sexual que se torna o eixo mais recorrente e perturbador. Não como erotização vazia, mas como instrumento de poder, dominação e dependência. O desejo não é apresentado como libertação, e sim como cárcere: uma forma de aprisionar o outro, de se impor sobre ele e, ao mesmo tempo, de se perder. Essa abordagem não é novidade na filmografia da diretora, que já trabalhou obsessão e relações assimétricas antes, mas neste filme ela parece mais confortável em levar esse tema até seus limites mais incômodos.
Visualmente, a estética criada para essa narrativa é um dos seus maiores acertos. O filme constrói um cenário bucólico e ao mesmo tempo inquietante, onde o antigo e o novo coexistem como crítica direta aos caprichos, excessos e ao excêntrico estilo de vida da família Linton. A riqueza não é apresentada como segurança, mas como distanciamento emocional e decadência moral. A obsessão, aliás, não está apenas nos personagens: ela se manifesta nos espaços, nos objetos e nos elementos simbólicos que se repetem ao longo da obra, transformando o ambiente em um reflexo direto do tormento interno de seus habitantes.

Ódio e amor anda pela narrativa:
Ódio e amor caminham lado a lado durante toda a projeção, sem nunca se anularem. Pelo contrário, eles se alimentam mutuamente. Amar, neste universo, é também ferir, humilhar e destruir e odiar é apenas outra forma de continuar preso. Talvez, podemos considerar que temos uma atmosfera de soft dark que flerta constantemente com o hot, onde a tensão sexual é tão importante quanto o conflito emocional. Tudo é carregado de uma sensualidade opressiva, densa, que nunca oferece alívio real ao espectador.
Há também uma exploração significativa da sexualidade feminina, ainda que envolta em contradições. A narrativa expõe desejos, impulsos e frustrações sem romantizá-los por completo, permitindo que os sentimentos conflitantes coexistam: prazer e culpa, liberdade e submissão, escolha e condicionamento. Não se trata de uma representação confortável, mas deliberadamente desconcertante, o que reforça o tom trágico da história.
Um casal complexo e polêmico:

Margot Robbie e Jacob Elordi sustentam o filme com uma química absolutamente visceral. Em cena, os dois parecem constantemente à beira do colapso, explorando os limites dessa paixão obsessiva de maneira quase sufocante. Cada gesto, cada silêncio e, principalmente, cada palavra dita (muitas vezes degradante) serve para intensificar a tensão. Eles não apenas representam a obsessão; eles a alimentam, transformando cada interação em um jogo de implicações, manipulação e desejo mal resolvido.
Margot entrega uma Cathy deliberadamente nojenta e mimada, difícil de defender, mas curiosamente compreensível em certos momentos. Sua crueldade nasce tanto do privilégio quanto da incapacidade de lidar com os próprios impulsos. Já Jacob constrói seu personagem com um olhar carregado de paixão e vingança, onde o amor nunca está dissociado da vontade de punir, de revidar e de marcar território emocional.
Aliás, preciso dar espaço para uma das personagens mais complexas, Nelly, interpretada por Hong Chau. Convencida de que está ajudando e protegendo, ela acaba sendo um dos principais agentes da tragédia. Seus atos são guiados por ciúmes, ressentimentos e uma vingança silenciosa, disfarçada de moralidade e cuidado. É nessa ambiguidade que o filme encontra uma de suas leituras mais interessantes: o dano causado não apenas pelo desejo explícito, mas também pela repressão e pela falsa virtude.
Vale a pena assistir O Morro dos Ventos Uivantes?
No fim, O Morro dos Ventos Uivantes não busca ser confortável nem conciliador. É uma obra que entende a obsessão como um vírus que contamina tudo, corpos, palavras, relações e paisagens, e assume isso com uma ousadia estética e emocional que pode dividir o público, mas dificilmente passará despercebida.




