Eles vão te matar: violento e genial?

À primeira vista, Eles Vão Te Matar parece seguir uma fórmula já conhecida do cinema contemporâneo. Ou seja, um slasher estilizado, carregado de sangue e com uma premissa que de sobrevivência em ambientes isolados. No entanto, o longa rapidamente rompe com essa expectativa inicial e se revela uma obra muito mais ambiciosa e provocativa. Por isso, vamos falar sobre Eles Vão Te Matar:
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De fato, um filme inesperado:
“Parece que vai ser só mais um filme de slashero, mas não vai.” É justamente dessa expectativa inicial que Eles Vão Te Matar se aproveita para surpreender. Sob a direção de Kirill Sokolov, conhecido por obras excêntricas como Por Que Você Não Morre? e Quem Vai Ficar com Masha?, o longa rapidamente abandona a superfície do terror convencional para mergulhar em uma experiência híbrida, estilizada e, sobretudo, autoral.
A trama acompanha Asia Reaves, interpretada por Zazie Beetz, uma mulher que tenta reconstruir sua vida após mais de uma década encarcerada. Ao aceitar um emprego no enigmático arranha-céu Virgil, no coração de Nova York, ela acredita estar diante de uma segunda chance. No entanto, o que encontra é um pesadelo: uma comunidade satânica que a escolhe como peça central de um ritual sacrificial. A partir daí, o filme se transforma em uma jornada brutal de sobrevivência.
Tem terror, mas tem comédia, ação e muito mais!
Embora comece com elementos claros do horror, o longa subverte rapidamente o gênero. Nos primeiros 20 minutos, o terror deixa de ser o foco principal e dá lugar à verdadeira essência da obra: uma mistura caótica e intencional de ação, comédia e violência estilizada. Sokolov abraça o absurdo sem hesitação — e é justamente essa escolha que prende o espectador. O exagero não afasta, mas aproxima, criando um envolvimento quase catártico.
As influências são evidentes. O filme bebe diretamente da fonte de Quentin Tarantino, especialmente de Kill Bill, tanto na construção das cenas de ação quanto no uso da violência coreografada como linguagem estética. Os combates são intensos, estilizados e, muitas vezes, carregados de um humor ácido que reforça o tom único da narrativa.

Zazie Beetz move o filme:
No centro de tudo está Zazie Beetz, que entrega uma performance arrebatadora. Já conhecida por trabalhos como Deadpool 2, a atriz atinge aqui um novo patamar, consolidando-se como uma heroína de ação à altura de nomes como Angelina Jolie — em produções como Tomb Raider e Salt — e Uma Thurman em Kill Bill. Sua Asia é complexa: ao mesmo tempo em que nos cativa, também nos faz sentir sua raiva, seu trauma e sua violência latente. É uma personagem moldada pela dor, uma mulher que, ao tentar proteger a irmã de um pai abusivo, acaba sendo tragada por um destino ainda mais cruel.
Os embates com Patricia Arquette e Heather Graham elevam ainda mais o nível dramático. Arquette, especialmente, constrói uma antagonista memorável com Lily, uma figura dominante e psicologicamente instável, cuja ambiguidade revela alguém moldado por sacrifícios e distorções ao longo do tempo. Já Myha’la, que vem de projetos como Morte Morte Morte e O Mundo Depois de Nós, entrega uma personagem mais frágil e ingênua, funcionando como contraponto emocional dentro do caos.
Completando o elenco, nomes como Tom Felton e Paterson Joseph reforçam a pluralidade de tons do filme. Sokolov, que também assina o roteiro ao lado de Alex Litvak, demonstra domínio ao conduzir a narrativa por meio de planos-sequência dinâmicos e coreografias visuais impressionantes, criando um espetáculo que é ao mesmo tempo caótico e cuidadosamente construído.
Os famosos “salvadores da pátria”:
Mas há também uma camada crítica interessante. Em meio ao sangue e à ação, o filme toca, ainda que de forma sutil, em uma ironia social: a hipocrisia de indivíduos que se colocam como “salvadores”, especialmente ao lidar com minorias e imigrantes. O Virgil, nesse sentido, funciona como uma metáfora distorcida de elites que se alimentam da vulnerabilidade alheia enquanto mantêm uma fachada de superioridade moral.
Outro ponto relevante é como o longa trabalha a ideia de pertencimento. A comunidade do prédio oferece uma identidade, uma função, um lugar — elementos fundamentais para indivíduos que foram socialmente deslocados. Porém, essa sensação de pertencimento é construída sobre manipulação e violência. Sokolov parece questionar: até que ponto a necessidade de fazer parte de algo pode nos levar a aceitar estruturas abusivas? E mais — quem se beneficia dessa necessidade?
Vale a pena assistir Eles Vão Te Matar?
No fim das contas, Eles Vão Te Matar sabe exatamente o que é e isso joga a seu favor. É um filme que não tem medo de exagerar, de misturar gêneros ou de se entregar ao absurdo. De modo geral, a obra cumpre o que promete desde os primeiros minutos: um espetáculo visceral, estilizado e surpreendentemente envolvente.




