Dia D: O retorno de Spielberg decepciona?!

Steven Spielberg retorna à ficção científica com Dia D, uma produção que abandona o encantamento típico de seus clássicos para mergulhar em um cenário de paranoia, desinformação e crise de confiança. Partindo da descoberta da existência de vida extraterrestre, o diretor propõe uma questão intrigante: e se o verdadeiro perigo não fossem os alienígenas, mas a reação da humanidade diante da verdade? Embora encontre força nessa discussão, o longa acaba preso a fórmulas narrativas desgastadas e a um excesso de ação que enfraquece suas reflexões mais interessantes. Por isso, vamos falar sobre Dia D:
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Lidando com a verdade…
Com Dia D, Steven Spielberg retorna a um dos temas que mais marcaram sua carreira: a possibilidade da existência de vida extraterrestre. Desde Contatos Imediatos do Terceiro Grau até E.T. – O Extraterrestre, o cineasta sempre demonstrou fascínio pelo desconhecido e pela relação entre humanidade e o que existe além da Terra. Em seu novo filme, porém, a proposta parece menos interessada no encanto da descoberta e mais focada nas consequências políticas e sociais que uma revelação dessa magnitude poderia provocar.
A discussão sobre os impactos da verdade é, sem dúvida, o aspecto mais interessante e dinâmico da narrativa. A grande sacada de Dia D está em sugerir que a ameaça alienígena talvez seja menos devastadora do que a incapacidade humana de lidar com a verdade. O filme encontra seus melhores momentos quando explora a paranoia coletiva, a manipulação institucional e o medo social diante de uma realidade capaz de transformar completamente a percepção que a humanidade tem de si mesma.
Mas acaba na caricatura!

Entretanto, o que poderia ser uma obra capaz de renovar o subgênero acaba se tornando uma representação bastante caricata da própria descoberta extraterrestre. O roteiro recorre excessivamente a figuras narrativas já desgastadas, como o escolhido, o mentor misterioso e o vilão unidimensional. Em vez de desafiar convenções, Spielberg e David Koepp preferem seguir caminhos previsíveis. O mesmo acontece com o design dos alienígenas, cuja aparência carece de identidade própria. Não se trata da necessidade de criar criaturas espetaculares ou visualmente extravagantes, mas de encontrar uma abordagem menos genérica e mais alinhada à singularidade temática que o filme tenta construir.
A narrativa começa de forma frenética, acompanhando Daniel (Josh O’Connor) enquanto foge das autoridades ao lado da namorada Jane (Eve Hewson). Sua jornada eventualmente o leva até Maggie (Emily Blunt), uma repórter meteorológica cuja misteriosa conexão com os alienígenas acaba se tornando o elemento mais interessante do filme. Diferentemente de outros protagonistas da filmografia de Spielberg, Daniel jamais desenvolve o carisma necessário para conquistar o público. Os heróis do diretor costumam operar dentro de arquétipos reconhecíveis, mas normalmente possuem personalidade suficiente para despertar identificação e empatia. Aqui, o protagonista permanece excessivamente funcional ao roteiro.
Maggie, por outro lado, cumpre duas funções fundamentais. Ela é a principal representante do espectador dentro daquela realidade, conduzindo o público através do mistério e da descoberta, ao mesmo tempo em que se transforma no fio condutor mais consistente do roteiro. Conforme a trama avança, fica evidente que a história não consegue seguir adiante sem sua presença. Emily Blunt aproveita o espaço com eficiência, trazendo humanidade e até mesmo humor para a personagem, explorando uma inquietação que remete aos seus melhores trabalhos cômicos.
Dessa vez, Spielberg falhou na entrega:

Distante do encantamento de E.T. – O Extraterrestre (1982) e da sensibilidade intimista de Os Fabelmans (2022), Spielberg parece perder o equilíbrio entre espetáculo e emoção. Ao lado de David Koepp, veterano colaborador de sucessos como Jurassic Park e Indiana Jones, o diretor tenta construir uma ficção científica com forte dimensão político-social, mas acaba sufocando suas ideias em meio a perseguições, confrontos físicos e sequências de ação excessivamente convencionais. A obra sugere reflexões interessantes sobre desinformação, controle da narrativa e confiança nas instituições, mas raramente se aprofunda nelas.
O desfecho sintetiza boa parte dos problemas do filme. Assim como ocorreu em Guerra dos Mundos (2005), Spielberg opta por uma resolução anticlimática que exige do espectador uma dose considerável de ingenuidade. Em uma época marcada pela manipulação de imagens, pelas fake news e pela crescente crise de credibilidade das instituições, as respostas apresentadas pelo roteiro soam simplistas diante da complexidade dos temas que ele próprio propõe discutir. Ao final, o cineasta desperdiça uma oportunidade valiosa de dialogar com a memória afetiva construída por seus grandes clássicos da ficção científica.
Quando comparado a produções recentes como Não! Não Olhe! (2022) e Não Olhe para Cima (2021), Dia D assume claramente a identidade de um suspense de ação. O problema é que, ao trocar o fascínio pelo desconhecido por uma sucessão de perseguições genéricas, Spielberg abandona justamente aquilo que tornou sua ficção científica tão memorável ao longo das décadas: a capacidade de transformar o encontro com o extraordinário em uma experiência profundamente humana. O filme mira a grandiosidade de um acontecimento capaz de redefinir a história da humanidade, mas termina reduzido a uma corrida constante que parece não saber exatamente para onde deseja ir.
Vale a pena assistir Dia D?
No fim, Dia D é um filme repleto de ideias promissoras e reflexões relevantes, mas incapaz de explorar todo o potencial de sua premissa. Embora encontre força em sua discussão sobre a verdade e conte com uma ótima atuação de Emily Blunt, a obra se perde em fórmulas desgastadas, personagens pouco marcantes e escolhas narrativas excessivamente convencionais. O resultado é uma ficção científica competente como entretenimento, mas frustrante para quem esperava mais um capítulo memorável da longa relação de Spielberg com o desconhecido.




