Carrie, a Estranha: Vale a pena assistir a série do Prime Video?

Carrie, a Estranha, a nova série do Prime Video, propõe uma releitura da conhecida história de Stephen King, aproximando a trama dos tempos atuais e aprofundando personagens. Mas será que a produção consegue entregar uma nova versão à altura da história que já conhecemos? A resposta é um pouco mais complicada do que parece e eu vou contar se vale ou não assistir!
Um novo olhar para Carrie
Confesso que, se talvez eu não tivesse lido o livro, teria achado a série 10 de 10. Não digo nem que precisaria ter assistido às outras adaptações, porque acredito que cada uma precisa trazer um olhar diferenciado sobre Carrie. Acho isso válido e justo, afinal cada adaptação pode explorar um ponto diferente da história e apresentar novas perspectivas sobre a personagem. Mas, talvez, se eu não tivesse lido o conto, teria amado a série e achado tudo muito legal todas as modificações.
E aqui vale uma explicação. Carrie é um conto de aproximadamente 200 páginas, com uma narrativa bastante objetiva, que não se aprofunda tanto nos personagens, com exceção da própria Carrie e de sua mãe. O livro tem um ritmo de leitura diferente, misturando os acontecimentos da história com estudos, pesquisas sobre telecinese e outros documentos que ajudam a contextualizar os eventos. Por isso, eu já esperava algumas diferenças em relação à obra original.
Minhas expectativas vs realidade

Dentro das minhas expectativas, a série estava cumprindo muito bem o seu papel. Entendi isso logo nos primeiros episódios, quando ficou claro que a produção pretendia fazer uma nova leitura de Carrie, aprofundando outras questões e misturando a história original com elementos do mundo atual. Eu também já esperava essa abordagem mais moderna, com discussões atuais para uma história originalmente publicada em 1974. E nesse sentido, a série estava entregando exatamente o que eu imaginava.
No livro, embora ela seja descrita como uma menina espinhosa e gordinha, isso não significa necessariamente que ela seja feia. Afinal, estamos falando de uma adolescente de aproximadamente 16 anos, e ter espinhas nessa idade não faz de alguém uma pessoa feia. Por isso, achei a caracterização coerente. Também gostei da escalação do elenco e acredito que todas entregaram bons trabalhos.
Outro ponto que me chamou a minha atenção foi como eles trabalharam a mãe de Carrie. Gostei da ideia de ser uma pessoa religiosa e ao mesmo tempo, funcionar como uma espécie de “ajuda” para a filha. Entretento, existe uma diferença entre atualizar uma história e alterar elementos que são fundamentais para a construção de uma personagem. E foi justamente nesse ponto que comecei a perceber alguns problemas.
No livro e nas outras adaptações, a mãe demonstra uma espécie de repulsa pela própria filha, tratando-a como se fosse fruto de um pecado. Por mais que acho isso pesado, e ter gostado de certa forma da leveza dela não odiar a filha na nova versão, senti falta do peso religioso. O fanatismo de Margaret White é uma das questões mais importantes da história e fez falta na construção da narrativa. Afinal, esse é um dos pilares de Carrie, porque é justamente a partir dessa relação com a mãe e com o ambiente religioso que a personagem começa a questionar muitas coisas dentro de casa e até mesmo o mundo ao seu redor. Em resmo, gostei de parte da mudança, mas senti falta de parte dessa intensidade.
A cena do baile foi uma decepção
Atenção! Spoiler a partir daqui.
Eu estava muito curiosa para saber como a série a cena do baile, especialmente por causa dos acontecimentos ao longo da série. E uma das coisas que me deixou intrigada foi a maneira como Carrie passou a ser vista pelos colegas. Em determinados momentos, ela parece se tornar uma espécie de símbolo de liberdade contra os agressores da escola, passando a ser vista de maneira mais positiva pelos outros estudantes. A palavra querida talvez seja forte demais, mas a personagem realmente parece conquistar uma aceitação maior dos colegas. E foi justamente isso que me deixou curiosa para saber como a produção trabalharia a cena do banho de sangue no baile.
Porém, quando a cena chegou eu fiquei bastante decepcionada. Esperava algo mais elaborado, com efeitos marcantes, uma sequência capaz de tirar o fôlego ou, pelo menos, transmitir o impacto que esse momento costuma ter na história. Mas achei a cena fraca. E o que veio depois me incomodou ainda mais.
Não foi Carrie quem provocou tudo aquilo da maneira como eu esperava. A personagem simplesmente se deixou possuir por outra figura com poderes para que essa outra pessoa realizasse os ataques. E isso me pegou bastante, principalmente porque eu já estava com o pé atrás em relação a essa personagem. Talvez faça sentido em uma continuação ou em uma possível expansão desse universo, como vem sendo comentado. Mas, dentro da história de Carrie, senti que sua presença acabou tirando muito da essência da protagonista. (Não vou falar o nome da personagem para amenizar o spoiler)
Eu entendo que precisamos assistir às adaptações com a mente aberta, sem exigir que tudo seja igual ao livro. Uma nova releitura pode, sim, trazer mudanças e explorar caminhos diferentes. Entretanto, acredito que não podemos deixar de lado algumas das características mais marcantes da personagem. E a partir do momento em que a série tira de Carrie a responsabilidade pelo massacre, transfere essa ação para outra personagem, acaba mexendo em algo fundamental para a história.
Carrie tinha seus motivos para agir daquela maneira. Isso não significa que tudo o que ela faz seja correto, mas existe uma diferença entre reconhecer a complexidade da personagem e retirar dela a responsabilidade por suas próprias ações. E pra mim, essa mudança altera a essência da personagem.

As mudanças que funcionam na releitura
Apesar dos problemas, existem mudanças que considero positivas. Como por exemplo: a proposta de aproximar a história dos tempos atuais, explorar melhor outros personagens e trazer discussões que fazem sentido dentro desse novo contexto. Também gostei de algumas alterações na maneira como os jovens são retratados. Nas histórias anteriores, os adolescentes aparecem muito sexualizados, envolvidos constantemente em festas, drogas e outras situações desse tipo. Acredito que a série conseguiu fazer algumas mudanças interessantes nesse aspecto.
Outro exemplo é Billy, que não é tão agressivo com Chris quanto no livro. Na obra original, ele chega a bater nela e é apresentado como alguém extremamente agressivo com a personagem. Por isso, gostei da maneira como essa relação foi modificada na série.
Agora falando dos episódios em si, ele seguem o ritmo em todos. Ou seja, se você não gostar do primeiro, dificilmente vai gostar do restante da série, porque a produção estabelece logo no início a maneira como pretende contar essa história. Considero que o ritmo mais lento faz sentido dentro da narrativa que a produção escolheu construir. Embora tenha achado a série um pouco parada em alguns momentos, consigo entender essa decisão dentro da proposta de desenvolver outros personagens e apresentar uma nova perspectiva sobre a história.
Ou seja, não considero que todas as mudanças sejam ruins. Pelo contrário, muitas delas funcionam e demonstram que existe espaço para contar essa história de outra maneira. O problema é quando essas alterações começam a modificar elementos fundamentais para a identidade da personagem.
Afinal, vale a pena assistir a Carrie, a Estranha?
Acredito que a série não vai agradar a todo mundo, mas entrega aquilo a que se propõe quando tenta aproximar a história dos tempos atuais e oferecer um novo ponto de vista.
É claro que uma adaptação não precisa reproduzir cada acontecimento da obra original. Entretanto, a história de Carrie já é conhecida por muita gente, inclusive por quem nunca leu o livro. Por isso, quando chegamos ao final e nos deparamos com mudanças tão significativas, uma decepção pode acontecer.
A série deixa uma brecha gigantesca para uma possível segunda temporada, e espero que isso aconteça, porque vejo potencial nessa expansão. Principalmente pelo elenco, que entregou muito bem seus papéis e demonstrou que existe espaço para desenvolver melhor os personagens apresentados.
No geral, considero Carrie, a Estranha uma série boa, mas com problemas. Acredito que parte desses problemas é justamente a tentativa de inserir a identidade do diretor nessa produção. Dava para fazer diferente? Dava. Mas sinto que a série quis mudar demais e essas alterações e os elementos que ficaram de fora culminaram em uma sensação constante de: o que estou assistindo é realmente a Carrie ou uma outra história inspirada nela?
No fim, considero a série regular. Minha recomendação é assistir com a mente aberta, não esperando um final de tirar o fôlego nem grandes momentos de terror. Vá sem grandes expectativas e entenda a proposta da produção. Porque, no fim das contas, Carrie, a Estranha não é uma série de terror, e sim uma série adolescente atualizada para os dias atuais.




