A noiva: Um thriller gótico, poético e romântico

Dirigido por Maggie Gyllenhaal, A Noiva é um verdadeiro presente para quem ama o clássico de Mary Shelley, Frankenstein. Mas aqui não estamos diante de uma simples releitura. O filme coloca a personagem no centro da narrativa, transforma sua trajetória em protagonista e a torna muito mais do que um interesse amoroso. Ela é a força que movimenta a história e, de certa forma, a própria eletricidade que mantém Frankenstein vivo. Mas antes de entrar nos detalhes, que tal conhecer a história?
Conheça a história
Ambientado em Chicago na década de 1930, o filme começa com Frankenstein desesperado em busca de companhia. Sentindo a ausência de intimidade, afeto e conexão, o monstro procura a Dr. Euphronious, conhecida por seus experimentos de reanimação, implorando que ela crie uma mulher para ele. Movida por suas próprias ambições científicas, a doutora traz de volta à vida uma jovem assassinada por saber demais sobre um dos chefões da máfia local.
Porém, ao despertar, ela não se lembra de absolutamente nada. É como se sua vida tivesse sido reiniciada. Sem nome, passado ou identidade, ela se vê perdida em um mundo que não reconhece. É nesse momento que Frankenstein começa a inventar uma nova história para ela. Criando memórias, lugares, sugere um romance e até um casamento. Ao longo do filme, acompanhamos a jornada dessa mulher tentando descobrir quem realmente é e qual é sua verdadeira identidade.

Grotesco, poético e romântico
Logo no início, vemos Jessie Buckley interpretando também uma figura que representa Mary Shelley, em cenas em preto e branco. E essa Mary se mostra indignada por nunca ter conseguido apresentar a sua visão sobre A Noiva de Frankenstein. Sendo assim, ela decide que precisa contar essa história de alguma forma e, para isso, acaba possuindo o corpo de Ida, uma jovem assassinada pela máfia. O detalhe cruel é que um dos símbolos desse mafioso é arrancar a língua das mulheres que “sabem demais”, como forma de silenciá-las. Assim, o filme estabelece desde cedo sua principal temática: mulheres que são silênciadas, apagadas e ignoradas.
Outro ponto, é que em determinado momento da história, a protagonista se torna um símbolo de revolta feminina. Uma representação das mulheres que não querem mais se calar, que desejam ocupar as ruas, impor suas vontades e exigir justiça. O filme trata o amor, sim, mas trata principalmente da libertação feminina.
Embora exista uma relação entre a Noiva e Frankenstein, o filme não romantiza esse vínculo. O sentimento surge muito mais da solidão compartilhada do que de um amor idealizado. Ela não tem ninguém em quem confiar. Ele também não. O laço nasce da ausência, da carência e da necessidade de pertencimento. Mas A Noiva é muito mais do que o desenvolvimento amoroso entre essas duas figuras.
A narrativa mescla o grotesco, o violento e o melancólico de forma brilhante. As cenas sangrentas não são suavizadas. Há momentos de fúria e revolta, especialmente quando Frankie e a Noiva assumem um comportamento explosivo. Mas esses momentos se equilibram com cenas de melancolia profunda, quando ela se pergunta quem é, se pode confiar nele e se algum dia será realmente livre.
A libertação da Noiva
O filme também conta com a presença de Penélope Cruz no papel de uma das detetives responsáveis por investigar a morte de dois jovens em uma boate, vítimas de Frankie e da Noiva. Sua personagem é essencial para a narrativa, não apenas por conduzir a investigação, mas porque representa mais uma mulher inserida em uma estrutura machista.
À medida que ela compreende a história da protagonista, a detetive passa a se enxergar nela. Há um reconhecimento silencioso, quase doloroso, que transforma a investigação em algo maior do que a simples busca por culpados. O filme passa, então, a dialogar sobre pacto feminino, sobre mulheres que, mesmo em lados opostos da história, se reconhecem nas feridas umas das outras.
O desfecho traz uma reviravolta sutil, mas significativa: descobrimos quem realmente era a mulher ressuscitada e jogada em uma vala como indigente. No entanto, mais importante do que revelar seu passado é mostrar seu reconhecimento. Ela não se descobre apenas em nome ou origem, mas em essência. Ao compreender sua personalidade, seus desejos e sua força, ela finalmente se torna livre. E é somente a partir desse momento que sua história de amor pode, de fato, começar.

Vale a pena assistir A Noiva?
A Noiva não é um romance tradicional e muito menos um terror. Ele mistura os dois gêneros, mas vai além deles. É uma obra sobre identidade, silenciamento, obsessão, liberdade e amor sob uma perspectiva feminina potente. E tudo isso mesclado a um cenário gótico, poético, violento e simbólico. Posso dizer que é um daqueles filmes que talvez você precise assistir mais de uma vez para captar todos os detalhes, diálogos e camadas.
Se você gosta da história de Frankenstein, precisa assistir. E mesmo que não goste, essa releitura vale a experiência. Porque aqui, pela primeira vez, a Noiva não é apenas criada para alguém. Ela finalmente ganha voz!




