100 noites de Desejo: Bonito, mas falta impacto

Em tempos em que debates sobre representatividade feminina ganham cada vez mais espaço, 100 Noites de Desejo surge como uma fantasia medieval que busca transformar essas discussões em uma fábula visualmente exuberante. Dirigido por Julia Jackman e baseado na obra de Isabel Greenberg, o longa combina romance queer, crítica feminista e elementos de contos clássicos para contar uma história sobre resistência em um mundo que teme o poder das palavras. Embora apresente ideias provocativas e uma estética encantadora, o filme encontra dificuldades para desenvolver plenamente suas ambições narrativas, resultando em uma obra tão fascinante em seu discurso quanto irregular em sua execução. Por isso, vamos falar mais sobre 100 Noites de Desejo:
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Qual é a historia?
Julia Jackman retorna ao cinema com 100 Noites de Desejo, fantasia medieval baseada na graphic novel homônima de Isabel Greenberg. Inspirado também pela tradição narrativa de Um Conto e Cem Noites, o longa combina romance queer, crítica feminista e uma estética visual exuberante, marcada por tons pastel e uma atmosfera de conto de fadas moderno.
Ambientada em um reino fictício governado pelo tirânico Birdman, a história acompanha Hero (Emma Corrin), uma contadora de histórias que assume o papel de narradora e elo central da narrativa. Ao lado das irmãs Rosa (Charli XCX) e Cherry (Maika Monroe), ela vive em uma sociedade que considera a leitura e a escrita atos proibidos para mulheres. Cherry, casada com Jerome (Amir El-Masry), recebe uma sentença cruel: engravidar em cem dias ou enfrentar a execução. Enquanto isso, Jerome aceita a aposta de seu amigo Manfred (Nicholas Galitzine), que tenta seduzir Cherry durante esse período em troca do controle das terras da família. Em meio à pressão, Hero utiliza histórias sobre a liberdade e a ousadia de Rosa para manter a esperança viva, transformando a própria arte de narrar em um gesto de resistência.
O início de uma boa ideia…
Um dos pontos mais interessantes do roteiro está justamente na forma como a escrita, a leitura e as palavras são tratadas como instrumentos de poder. Em um mundo que proíbe mulheres de acessar o conhecimento, a alfabetização se torna um ato revolucionário. As histórias contadas por Hero funcionam como mecanismo de defesa, preservação da memória e desafio à opressão masculina, reforçando a ideia de que a cultura e a educação podem ser ferramentas de libertação.
O filme também estabelece uma crítica contundente à maneira como mulheres historicamente foram responsabilizadas pela infertilidade e pela incapacidade de gerar herdeiros. Cherry carrega sozinha o peso da cobrança por uma gravidez que depende de fatores muito mais complexos, enquanto os homens ao seu redor permanecem livres de qualquer responsabilização. A narrativa evidencia a injustiça desse sistema, expondo como as falhas são constantemente atribuídas às mulheres, independentemente das circunstâncias.
Mas, a execução não causa impacto!
Entretanto, nem todas as ambições do projeto encontram correspondência na execução. Nos dois primeiros atos, a narrativa recorre repetidamente a montagens para indicar a passagem dos cem dias. Embora o recurso funcione inicialmente, a repetição torna a percepção do tempo difusa e enfraquece a urgência da contagem regressiva que deveria impulsionar a trama. Da mesma forma, surge também um romance queer entre Hero e Cherry que demora a se concretizar e recebe pouco espaço para se desenvolver. Quando finalmente ganha forma, já nos momentos finais, resta pouco tempo para aprofundar a relação ou explorar plenamente a química entre as personagens.
Além disso, a ausência de um clímax efetivo compromete a sensação de conclusão. A revolta contra Birdman, anunciada ao longo da trama como um momento decisivo, acontece fora de cena e é apenas mencionada em diálogos. Como consequência, o espectador não presencia a transformação que o roteiro promete, reduzindo a força dramática do desfecho.

Por outro lado, o elenco entra na proposta:
Nas atuações, Emma Corrin entrega uma presença forte e controlada como Hero. Seu carisma e sua capacidade de sustentar longos momentos de narração mantêm o interesse do espectador mesmo quando a trama desacelera. Maika Monroe interpreta uma Cherry inicialmente insegura e ansiosa, que encontra mais firmeza apenas nos momentos finais. Já Nicholas Galitzine constrói um Manfred sedutor, mas pouco desenvolvido, enquanto Amir El-Masry apresenta um Jerome emocionalmente distante, mais preocupado com sua reputação do que com qualquer demonstração de afeto. Essas oscilações de construção dramática acabam reduzindo parte do impacto emocional da história.
Visualmente, 100 Noites de Desejo aposta em uma estética extremamente estilizada. O figurino de Sofia Sacomani investe em tons pastel, bordados extravagantes e referências anacrônicas que remetem ao cinema de Wes Anderson e Sofia Coppola. A direção de arte amplia essa proposta com cenários repletos de plumas e elementos decorativos inspirados na figura de Birdman, criando uma identidade visual marcante que sustenta o tom de fábula irônica pretendido pela diretora.
Vale a pena assistir 100 Noites de Desejo?
De fato, 100 Noites de Desejo é uma obra visualmente encantadora e repleta de ideias relevantes sobre liberdade, conhecimento e autonomia feminina. No entanto, sua narrativa irregular, o desenvolvimento limitado de alguns personagens e a falta de impacto em momentos decisivos impedem que alcance todo o potencial sugerido por suas premissas. Ambicioso em seu discurso e admirável em sua estética, o filme permanece mais forte como alegoria e manifesto do que como experiência dramática plenamente realizada.




