Hamnet: É uma história sobre Shakespeare?

Hamnet, dirigido por Chloé Zhao, não é uma história sobre Shakespeare, na verdade, é uma obra sobre pertencimento. Com um elenco impecável e uma direção profunda e humana, vemos uma narrativa que foca na dor do luto e no renascimento. Por isso,vamos falar sobre Hamnet:
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Qual é a história?
O longa mostra um dos mais importantes escritores do cânone ocidental William Shakespeare vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes Shakespeare quando o casal perde seu filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet era o nome do menino e, nessa história ficcional sobre a vida doméstica de Shakespeare, Agnes é a narradora e o ponto de vista fundamental da narrativa, demonstrando o luto que acompanha o fim precoce da vida do seu herdeiro.
Não é biografia de Shakespeare!
Hamnet , dirigido por Chloé Zhao, é antes de tudo uma obra sobre pertencimento. Não no sentido geográfico ou social, mas no plano mais íntimo e invisível das relações humanas, aquele espaço onde somos verdadeiramente vistos. Desde seus primeiros momentos, o filme estabelece que Agnes e Will pertencem um ao outro porque se reconhecem como ninguém mais é capaz de reconhecê-los. Há algo de profundamente silencioso e espiritual nessa conexão. Pois eles se enxergam para além das palavras, para além das convenções, como se compartilhassem um idioma próprio.
Esse sentimento se expande para os filhos, especialmente nos pequenos gêmeos que brincam de trocar de lugar e se apresentam como “duas metades de uma laranja”. A imagem, aparentemente ingênua, revela-se essencial para a grande virada da narrativa. Zhao planta essa metáfora com delicadeza, permitindo que ela cresça no inconsciente do espectador até o momento em que a tragédia se impõe e, com ela, a ruptura definitiva daquele mundo seguro. Quando a perda chega, o chão desaparece. O lugar que antes era habitável se torna irreconhecível, e nada volta a ser como antes.

A parceria que fez a diferença na obra:
É justamente sobre o que vem depois que Hamnet se debruça. No roteiro assinado por Zhao em parceria com Maggie O’Farrell, autora do livro original, o luto não é tratado como um evento, mas como um estado contínuo de existência. Em determinado momento, Will questiona que Hamnet “não pode simplesmente ter desaparecido”. Ele precisa estar em algum lugar. Na verdade, um espaço que não é mais ao lado da família, mas que também não representa um apagamento completo. Essa ideia de permanência deslocada é central para o filme, e é nela que a arte surge como refúgio e possibilidade de reencontro.
No teatro, Will troca simbolicamente de lugar com o filho. É ali que Hamnet passa a existir de outra forma, renascendo infinitamente através da criação artística. Ao mesmo tempo, é nesse processo que Agnes encontra um caminho possível para a cura, não individualmente, mas ao lado do marido. A arte não apaga a dor, mas reorganiza o mundo ao redor dela, devolvendo algum sentido àquilo que parecia irremediavelmente quebrado.
Curiosamente, Hamnet não faz grande esforço para se afirmar como uma biografia de William Shakespeare. O nome completo do dramaturgo só é pronunciado pela primeira vez no terceiro ato do filme, e suas obras aparecem como pequenas sementes narrativas, espalhadas ao longo do caminho. São pistas sutis, ecos, fragmentos. O longa está muito mais interessado em construir uma visão da história real do que em oferecer uma reconstrução factual. Por isso, espectadores menos avisados podem até ser pegos de surpresa com a revelação tardia.Porém, essa escolha reforça o ponto central: não se trata do mito, e sim da experiência humana que o antecede.
Jessie Buckley e Paul Mescal estão surreais na obra:

Além do belíssimo visual e do roteiro profundamente tocante, o elenco de Hamnet é um espetáculo à parte. Jessie Buckley entrega uma atuação abismal como Agnes, carregando o mistério que envolve a personagem enquanto expressa universos inteiros com um único olhar. Há algo de etéreo em sua presença, quase como uma figura saída da floresta, que contrasta com gritos passionais de dor tão humanos que parecem esgotar sua própria voz. As expressões de Buckley, especialmente na sequência final do teatro, transitam da raiva ao encantamento e já se inscrevem na história recente do cinema.
Paul Mescal, por sua vez, reafirma sua reputação como um dos intérpretes mais emocionalmente devastadores de sua geração. Sua performance percorre a inocência da paixão, passa por um homem atormentado em busca de compreensão e culmina em um pai em luto que se refugia obsessivamente no trabalho para continuar existindo. A parceria entre Mescal e Buckley é de uma beleza quase literária e sustenta o filme em seus momentos mais frágeis.
As crianças também merecem destaque especial. Jacobi Jupe, no papel-título, é uma revelação comovente. É dele, curiosamente, que surge a primeira lágrima do filme, antes mesmo das grandes cenas protagonizadas pelos adultos indicados ao Oscar. Um detalhe simbólico reforça ainda mais essa camada metalinguística: Jacobi é irmão, na vida real, de Noah Jupe (Um Lugar Silencioso), que aparece no filme como o intérprete de Hamlet. Emily Watson também brilha como Mary, a mãe de Will, trazendo complexidade e dureza à difícil relação com a nora.
Vale a pena assistir Hamnet?
Hamnet foi um dos filmes que mais me tocou nos últimos tempos. Com performances arrebatadoras, uma direção absolutamente maestral de Chloé Zhao, que também assina a montagem ao lado do brasileiro Affonso Gonçalves, editor de Ainda Estou Aqui e de diversos projetos relevantes no Brasil e em Hollywood, e uma história que ultrapassa a simples curiosidade sobre a origem de uma obra clássica, o filme se firma como algo muito maior. É sobre sentimento, memória e permanência. Além disso, sobre um menino que renascerá infinitamente na arte e que, justamente por isso, jamais será esquecido.




