Estrelada por Asa Butterfield e GIllian Anderson, “Sex Education” traz uma nova perspectiva ao gênero adolescente na Netflix. A nova série um serviço social inestimável aos seus espectadores que estão passando por um período de mudanças, refletindo a realidade de uma geração que enxerga as questões sobre identidade sexual e relacionamentos sob uma perspectiva moderna.

A comédia dramática já chama a atenção apenas pela presença de Asa Butterfield, um ator muito mais conhecido pelos seus papéis no cinema (Menino do pijama listrado e o Lar das Crianças Peculiares), cujo lado cômico é surpreendentemente eficiente, interpretando um protagonista fácil de acompanhar. Gillian Anderson, por sua vez, também possui uma base de fãs expressiva e consegue transpor um charme e uma postura firme que são essenciais para sua personagem. Ambos encontram papéis interessantes em Sex Education, com a série se propondo a explorar os aspectos psicológicos de seus personagens, tentando determinar os motivos e impulsos por trás de suas sexualidades. Por conta desta proposta, o resto do elenco também tem seus momentos de brilho, especialmente Emma Mackey, a intérprete de Maeve. Talvez o grande mérito da série seja justamente o fato destes personagens conseguirem fugir dos estereótipos adolescentes já explorados na televisão, com suas personalidades retratando diferentes perspectivas que possam tornar este estudo sobre a sexualidade mais profundo.

Otis (Asa Butterfield) e Maeve ( Emma Mackey)

O nome da série já indica muito o que realmente representa essa fase tão marcante na vida de cada ser humano. É sempre um período desconfortável, onde o professor procura explicar e desmistificar o ato sexual de uma forma que seja compreensível para todos os alunos. A má fama destas aulas especiais acaba vindo da necessidade destas explicações conseguirem abranger as diferentes perspectivas adolescentes com um único discurso universal, o que dificilmente é possível em uma sociedade muito mais sexualmente diversificada do que a de meros dez anos atrás. A obra consegue prestar este serviço de forma muito mais acessível, declarando a sua descontração logo no primeiro episódio, e mantendo o tom cômico de forma consistente ao longo da temporada. Não é que vai ter, literalmente, uma aula de sexo, mas expõe o quão crucial é entender que cada indivíduo possui a sua própria experiência, seus próprios desejos e temores, e sua própria identidade.

Butterfield interpreta o jovem Otis, um rapaz que, apesar de ser virgem, possui um vasto conhecimento sobre a biologia e a psicologia do sexo por conta de ser filho de dois terapeutas. Anderson interpreta sua mãe, Jean, uma profissional especializada em disfunções sexuais que procura ser desinibida e abordável com Otis, mas constantemente demonstra um distanciamento emocional causado por sua vocação. Mesmo com todo o seu conhecimento, Jean também acaba revelando suas inseguranças e impulsos ao longo da temporada, compondo mais uma versão de um dos dilemas mais recorrentes da série, envolvendo o auto-descobrimento e a aceitação pessoal. Juntos a ela, temos personagens como os amigos

Eric (Ncuti Gatwa) e Otis ( Asa Butterfiel) em “Sex Education”

e Aimee (Aimee Lou Wood), que de formas bem diferentes, precisam descobrir (ou ficarem confortáveis com) suas identidades em meio à pressão do ambiente adolescente. A produção acaba retratando situações interessantes de serem observadas nesta busca por identidade, com Eric encontrando conforto, por exemplo, no sermão da igreja frequentada por sua família, justo na igreja, que costuma ser uma grande vilã em histórias sobre liberdade sexual.

Produções sobre adolescentes sempre costumam trazer à tona a necessidade que temos, como indivíduos, de sermos aceitos pela comunidade que nos cerca. Em um determinado episódio, Maeve explica como uma simples chacota vingativa acabou definindo a maneira pejorativa como ela seria vista por seus colegas durante boa parte de sua adolescência. Tal tema acaba sendo ainda mais relevante em Sex Education, que retrata o quanto a grande maioria dos adolescentes acredita que suas identidades dependem de suas rotinas sexuais.

A série acaba demonstrando que sim, nossa sexualidade tem um papel fundamental na maneira como nos vemos, e como somos vistos por outros. Mas que, ao invés de tentarmos nos adequar às expectativas ou as normas impostas por pessoas completamente diferentes de nós, deveríamos buscar, acima de tudo, a auto compreensão. Aimee, uma personagem que sempre esteve em conflito entre o padrão que a engloba e suas aspirações pessoais, se mostra muito melhor resolvida e determinada depois que passa a noite se masturbando, tentando entender os próprios gostos e desejos.

Otis (Asa Butterfield) e Jean (Gillian Anderson)

Tais cenas sexuais não tem uma função estilística ou fetichista dentro da série. Muito pelo contrário. São sempre construídas de forma descontraída, constantemente buscando desmistificar o ato sexual, e mostrando que cada situação é única, além de raramente previsível. Otis, por sua vez, adota a função de “terapeuta do sexo” para com seus colegas de classe, atormentados pelos tabus e pela dificuldade de se ter um diálogo aberto sobre estes assuntos. Seus conselhos não impõem regras ou diretrizes, mas sim, procuram direcionar os “pacientes” para um melhor entendimento de seus próprios relacionamentos. A trajetória de Jean também exibe o quanto nem mesmo toda a observação e conhecimento do mundo seriam capazes de determinar a personalidade de alguém com total precisão. E se nem mesmo a especialista em sexo consegue escapar das armadilhas mais naturais de um relacionamento, o que dizer dos adolescentes que enxergam seus colegas com visões parciais e sempre se depreciam, achando que não estão “fazendo a coisa certa” ou “seguindo o ritmo”. A “coisa certa” deve ser definida internamente, de acordo com a experiência de cada um, e esta é a maior mensagem da série para o público que encontrá-la sem o menor receio de estar assistindo à uma típica “aula de sexo”.

“Sex Education” é leve, divertida, e seus personagens são notavelmente identificáveis, mantendo o engajamento do espectador sem muitos esforços. Os arcos narrativos principais ficaram sem uma conclusão plenamente satisfatória , até mesmo trágica, em alguns pontos, deixando o espaço para uma segunda temporada que, caso mantenha o mesmo nível de descontração e de diálogo com seu público, pode proporcionar momentos ainda mais relevantes para a geração atual.

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